terça-feira, 30 de dezembro de 2014

design no âmbito da economia e de políticas industriais


[transcrição da minha participação no debate promovido pelo british council em são paulo, novembro de 2013, organizado pela economista lidia goldenstein. a íntegra das discussões foi lançada em novembro de 2014 sob a forma de uma coleção com três volumes - ver link abaixo do artigo]




questionamentos sobre design e inovação não são assuntos novos no brasil. há quase 140 anos, o estadista, advogado e multifuncional rui barbosa dizia, na inauguração do liceu de artes e ofícios, no rio, que o desenho – ele não usava o termo design – era um ofício que devia ser incorporado pela indústria brasileira para que o país deixasse de ser exclusivamente um exportador de matéria-prima. e mais: se conseguíssemos unir a habilidade para o desenho, bem demonstrada naquela instituição de ensino na época, com as riquezas naturais do brasil, seríamos altamente competitivos.

nós nos esquecemos disso por cento e tantos anos e voltamos ao assunto no início dos anos 70, com o primeiro plano nacional de desenvolvimento científico e tecnológico. na época, a unido [ou onudi – organização das nações unidas para o desenvolvimento industrial, em português] havia publicado alguns documentos sobre a importância de que países periféricos, ou em desenvolvimento, tivessem políticas nacionais de design, que usassem o design como uma ferramenta de desenvolvimento econômico e social. nos anos 70, gui bonsiepe, designer alemão que se radicou na américa latina e hoje está no brasil, dizia que havia um erro estratégico sendo cometido em termos de políticas de design: nós, designers, estávamos preocupados em falar para os empresários, para a sociedade e para o governo quando deveríamos falar para o governo, para a sociedade e para os empresários; estávamos invertendo completamente a ordem. o governo não tinha noção do que falávamos; nós, designers, não sabemos falar com o governo, precisamos aprender essa outra linguagem. não sabemos falar com os empresários também, outra questão mais séria ainda.

dando outro salto, nos anos 2000 começa-se a falar em inovação, em como a sociedade pós-industrial em que vivemos começa a carecer de outras maneiras de competição além de preços e tecnologia. em 2008, o reino unido lançou seu planejamento de inovação, inovation nation, citado no ensaio da ailbhe [mcnabola]. nas 52 páginas do documento, design como ferramenta de inovação, como atividade, é mencionado 60 vezes. em 2010, a união europeia publicou seu próprio documento a respeito, chamado inovation union, com 43 páginas, que menciona 14 vezes o design como a ferramenta fundamental de inovação, que não deveria ser desprezada. um ano depois, o brasil edita a estratégia nacional de tecnologia e inovação para 2012 e 2015. temos a capacidade de sermos prolixos sempre, então o nosso documento tem 220 páginas, mas não fala em design uma única vez.

hoje percebemos que há uma abertura para discutir design com o governo em várias instâncias e com órgãos de fomento também. o bndes [banco nacional de desenvolvimento econômico e social] lançou não só o prodesign, mas o procult, com r$ 1,5 bilhão de reais, que também atinge o designer. só nesses dois programas já são r$ 2 bilhões, r$ 500 milhões para financiar design e uma fatia de r$ 1,5 bilhão que também pode ser usada para isso. o governo do estado do rio lançou, recentemente, um programa próprio de financiamento de r$ 80 milhões. na semana passada, tive uma reunião no rio com a presidência da finep [agência brasileira da inovação], discutindo como ajudá-los a entender melhor o design como ferramenta de inovação. nesses lugares, temos encontrado um panorama muito curioso: admite-se que o design é parte do processo de inovação que está sendo financiado, mas o julgamento é absolutamente subjetivo, não se sabe de que design se está falando, não se sabe por que o design é uma ferramenta de inovação.

durante a brasil design week 2013 em são paulo, nós da abedesign [associação brasileira de empresas de design] debatemos sobre o lançamento do programa do bndes. nossa preocupação é que parecia um casamento para o qual se esqueceram de avisar a noiva: o programa lançado foi uma surpresa para nós, designers. uma boa surpresa, mas, ao mesmo tempo, preocupante, porque é um programa que estabelece um corte inicial muito elevado – r$ 3 milhões, se eu não me engano – para entrada de projetos de design. para o bndes, já significa abaixar bastante o patamar habitual, que acho que é de r$ 10 milhões financiáveis. ainda assim, para projetos de design de uma maneira geral, é um patamar bastante elevado.

estamos chegando lá, mas precisamos encontrar mecanismos para capilarizar um pouco mais esses recursos. tenho até um certo receio de falar de capilaridade de recursos, porque temos uma tendência no brasil a sempre capilarizar, atingir todas as instituições, todos os locais, e isso, num país de proporções continentais, é um problema sério. acabamos não nos concentrando em nada, em nenhum programa de excelência, e criando uma enormidade de ações das quais um percentual mínimo efetivamente vinga. há quase dez anos, quando estava na direção da esdi [escola superior de desenho industrial], montamos um seminário com o bndes para discutir o que acontecia com as políticas de design no país: fazia-se alguma coisa, mas não ia adiante. a causa apontada foi a excessiva capilaridade de recursos. no brasil, às vezes há preocupação muito grande em distribuir recursos da forma mais democrática possível e cobrir toda essa enorme extensão territorial, mas não se consegue fazer isso. fiz meu doutorado em um programa do reino unido, cuja decisão estratégica de política de design nacional faz o oposto disso: decidiu-se concentrar todos os esforços em uma instituição para que essa se tornasse uma instituição de excelência. alcançando sucesso, esse exemplo se replicará e será seguido por outras instituições.

em 2008, organizamos um seminário internacional sobre políticas de design no rio de janeiro e convidamos representantes da espanha, da coreia do sul e do reino unido. eles trouxeram um panorama bastante diverso do que acontecia no brasil. estes países tinham centros, conselhos de design para propor, desenvolver e gerir programas de design, com grandes equipes, números impressionantes, enquanto no brasil nós tínhamos apenas uma pessoa no ministério do desenvolvimento tomando conta de um programa de design junto com programas de outras áreas. era impossível essa única pessoa gerir sozinha qualquer um daqueles programas, quanto mais diversos programas. eram programas que existiam só no papel.

o planejamento original do programa brasileiro de design é muito bem-feito, mas não dá para querer reinventar a roda e gerir políticas públicas sem um órgão de gestão de políticas públicas. há poucas semanas, em um debate na editora abril, disseram: “se vocês vão esperar que o governo faça alguma coisa, esqueçam; o segmento de design não vai crescer nunca”. eu contra-argumentei: “design é componente fundamental na promoção da inovação – e estamos de acordo com isso. se pretendemos nos tornar mais competitivos através da inovação e sabemos que para isso precisamos do design, basta olhar para os países mais competitivos no mundo hoje e ver como eles gerem as suas políticas de design; não adianta imaginar que vamos fazer de um jeito completamente diferente”.

eu vejo com muita preocupação como a economia criativa vem sendo tratada dentro da área da cultura no brasil. o produto do design pode se situar no ambiente da cultura, mas a produção do design se estabelece no âmbito da economia. portanto, o foco maior da discussão de políticas de design não pode ser deslocado para o produto do design, mas sim tratar das relações que existem entre design e inovação, desenvolvimento, políticas de ciência e tecnologia. se desconsiderarmos este contexto, vamos nos afastar do verdadeiro papel que o design representa, ou pode representar, para a economia. aliás, esse é o sentido original do que richard florida escreveu há tempos, a visão macroeconômica sobre as indústrias criativas e o papel delas como fator de competitividade. isso muito me preocupa. não podemos considerar o design apenas em relação ao seu produto final, pois isso alimentaria a visão do design como uma casca que aparece ao final da produção, e não como processo integral, front end da inovação.

em um artigo de 2009, o deputado antonio palocci [ex-ministro da fazenda] disse que o design fez mais pela economia brasileira do que qualquer medida protecionista. essa percepção dele tinha origem e se ampliava a partir do segmento da moda. existe, entre os economistas, uma vaga percepção sobre a importância do design, mas esse desvio de rota que se está fazendo é muito preocupante.

job rodrigues [bndes] questionou como ir além dos prêmios e da promoção no design, afirmando que uma política de design tem de ir além disso. isso vem sendo discutido há pelo menos 70 anos, que é a idade do design council. os historiadores remetem a história das políticas de design até o século 19, pelo menos; antes ainda, como uma pré-história, as políticas de design teriam surgido associadas às políticas mercantilistas e depois às feiras universais etc. uma das grandes críticas dos teóricos e historiadores do design ao próprio design council é que, muitas vezes, ele tomou o caminho da evangelização pelo design, como a ailbhe mencionou, por ser mais fácil fazer isso do que intervir no mercado. a intervenção no mercado é muito mais difícil de ser feita; falar dos aspectos positivos do design é muito mais fácil. aqui cabe uma grande autocrítica: nós, designers, temos a tendência de só falar, fazer esse papel de evangelistas de nós (e para nós) mesmos. nisso somos muito semelhantes, possivelmente, aos médicos que, quando lidam com a vida humana, têm a tendência de se verem como super-homens. designers têm a tendência de ser super-homens - afinal, designer é a profissão de deus - isso é muito perigoso.

quando falam que as políticas de design não estão inseridas em políticas tradicionais industriais e de inovação, eu discordo. usando o exemplo do design council: ele foi criado em 1944, durante a segunda guerra, para contribuir para que a indústria britânica crescesse depois que terminasse a guerra. um dos seus objetivos era fornecer mobiliário, acessórios de casa etc. para os bombardeados da guerra e para a grande quantidade de novos casamentos esperados com o retorno dos jovens que tinham ido para a guerra. eles iam formar novas famílias e precisavam mobiliar e montar casas. isso poderia alimentar a indústria britânica, que precisava voltar a crescer. é difícil haver maior inserção do design em uma política industrial do que isso!

outra coisa da qual eu também discordo é que as políticas de design surgem a reboque da indústria. as políticas de design têm sido usadas muitas vezes para intervir na indústria. a indústria coreana, por exemplo, fez uma opção de investir num segmento bastante incomum, o setor da indústria automobilística. o carro coreano há 10, 20 anos, para nós, no brasil, era a towner, da kia, aquele carro horroroso. hoje, os automóveis coreanos competem com a bmw, num patamar completamente diferente. foi uma opção de intervenção num segmento da indústria, sofisticado, totalmente diferente de uma ação em indústria de pequeno porte. foi uma ousadia em termos de política pública o que a coreia fez naquele momento.

sobre política intervencionista no mercado para corrigir falhas sistêmicas, esses documentos da unido dos anos 70 que mencionei previamente sugeriam exatamente esse caminho, que as políticas de design deveriam surgir para apoiar políticas industriais e de ciência e tecnologia, e mostravam como fazer isso. tinham fórmulas prontas que poderiam ser adotadas. no brasil, algumas foram seguidas. o departamento de design do int [instituto nacional de tecnologia] no rio foi criado nessa época, nos anos 70, dentro de uma política industrial. o cetec [fundação centro tecnológico de minas gerais], de belo horizonte, também foi criado nessa época para dar apoio à indústria moveleira local como parte de uma política industrial e tecnológica. existem exemplos práticos no brasil e há outros exemplos de intervenção de políticas de design hoje em dia na coreia, finlândia, dinamarca, suécia e, mais perigosamente, falando de nossa competição direta, em cingapura, na índia e na china.



[a série completa com as três publicações do british council está disponível online, na página "diálogos de economia criativa entre o brasil e o reino unido"]

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

design, política, políticas, políticos…



ao longo dos últimos meses tenho repetido, com algumas variações e adaptações aos propósitos e às diferentes platéias, uma palestra sobre políticas de design. nela eu falo de definições, de problemas relacionados ao desconhecimento, do panorama mundial (com frequência focando apenas no reino unido, para abranger questões típicas), da situação no brasil e suas potencialidades e perspectivas.

consigo enxergar com otimismo o cenário e as perspectivas do design no brasil, especialmente pelas potencialidades que percebo tanto na nossa índole criativa e adaptadora, quanto nas carências do governo (em todas as suas instâncias) por uma ferramenta como o design para desenvolver políticas e serviços públicos mais efetivos e eficientes.

compartilho aqui uma das versões desta palestra, que contém ainda algumas questões relacionadas à propriedade intelectual, já que foi apresentada no seminário internacional de desenho industrial promovido na puc de porto alegre pelo inpi (instituto nacional de propriedade intelectual) e pela ompi (organização mundial de propriedade intelectual). aqueles que me assistiram no rio de janeiro no dia 9 de novembro (semana design rio, no jóquei) ou em goiânia no dia 17 de dezembro (na incubadora goiás criativo) vão reconhecer o conteúdo da primeira parte!

pois bem, que 2015 seja um ano repleto de realizações para o design brasileiro!





sexta-feira, 31 de outubro de 2014

políticas de design: a tese




de outubro de 2009 a maio de 2013 dediquei-me integralmente a pesquisar, discutir, e escrever sobre políticas de design. este foi o período que passei na universidade de cranfield, reino unido, desenvolvendo o meu doutorado. finalmente em novembro de 2013 passei pela minha banca e fui aprovado após fazer algumas correções solicitadas.

a pesquisa recebeu o título: the impact of european design policies and their implications on the development of a framework to support future brazilian design policies.

recentemente foi disponibilizado pela biblioteca da universidade o link para a tese, que compartilho agora com vocês:


a tese está disponível também através do sistema ethos (electronic theses online service), da british library:


espero que vocês gostem a façam bom proveito!


atualização:



em cerimônia no dia 27.11.2014, minha tese foi agraciada com o primeiro lugar na 28ª edição do prêmio design do museu da casa brasileira, na categoria de trabalhos escritos não-publicados. o prêmio design mcb é a mais tradicional premiação de design no brasil, sendo atribuído desde 1986.

atualização 2:



no dia 23.05.2016, tive a honra de receber o troféu máximo (categoria ouro) do prêmio internacional objeto:brasil, tornando-se assim o segundo prêmio máximo a ser concedido à tese.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

diagnóstico do design brasileiro – uma resenha




o ministério do desenvolvimento (mdic) lançou no início de junho de 2014 o diagnóstico do design brasileiro, estudo encomendado através da apex ao centro brasil design. não é a primeira vez que se tenta fazer um mapeamento da atividade de design no país – há antecedentes do próprio centro de design paraná para o programa brasileiro de design (1,2) (do próprio mdic) e também do sebrae (3), entre outras iniciativas. desta vez no entanto, ao invés de mapear a demanda ou as instituições e ações promocionais, a iniciativa do mdic aprofundou-se mais, pretendendo fazer um diagnóstico amplo do setor que permitisse iniciar um processo de construção de políticas nacionais de design.

um diagnóstico deste porte, de um setor praticamente virgem em termos de estatísticas e estudos, e com a dificuldade de ser precisamente definido e encontrado será sempre parcial, sem nenhum demérito para o estudo ou para a equipe. parcial pela impossibilidade de se fazer um diagnóstico com 100% de abrangência de um segmento fragmentado e difuso, inclusive pela enorme extensão territorial do nosso país. parcial por ainda estarem sendo construídas, em todo o mundo, as métricas para se avaliar o setor. parcial por ter a ousadia de ser o primeiro, por propor e experimentar novas métricas para se buscar entender o segmento.

em se entendendo essas limitações, é preciso que se diga que nunca foi feito estudo com tamanha abrangência e profundidade sobre o design brasileiro. a equipe do centro brasil design, que vem se especializando e se notabilizando no país e internacionalmente há cerca de quinze anos (desde 1999), certamente era a mais habilitada instituição brasileira para realizar esta tarefa. o empenho, a dedicação e a capacidade desta equipe resulta num trabalho de referência histórica para o design brasileiro, que servirá de base a muitos outros estudos que certamente virão.

no que diz respeito às suas intenções originais, sabe-se que o trabalho deverá servir como base para estudos mais específicos, que deverão propor estratégias e caminhos para uma política nacional e para políticas regionais de design.

qual a importância de politicas de design para o brasil?

o design é reconhecido hoje por governos de diversos países pelo seu potencial de fomentar inovação e desenvolvimento. a união europeia nestes últimos anos tem apontado aos seus países membros a importância de se investir em políticas de fomento ao design e inovação. design passou a ser uma palavra-chave para estes países. no brasil, este potencial vem sendo percebido (ainda que lentamente), e começam a tomar forma ações para melhor compreender e fazer uso desta ferramenta.

o potencial do design vai além do seu uso tradicional para promover a competitividade industrial. contribuir para a solução de problemas sociais, nas áreas de saúde, segurança, educação, meio ambiente – tudo isso está no escopo das habilidades transdisciplinares e catalizadoras de soluções que são características do design. essa ‘descoberta do design’ desponta como um importante resultado oferecido à sociedade pelo estudo apresentado pelo centro brasil design.

o estudo aponta ainda o papel do governo em continuar promovendo estudos e levantamentos de dados sobre o setor, que venham alimentar o planejamento e a sistematização de ações na área, aproveitando todo esse potencial. trata-se antes de tudo de uma forma de gestão de design centralizada numa agência nacional, nos moldes do que fazem os países que vêm investindo em políticas de design a décadas, e adaptado às características e dimensões continentais do nosso país. este organismo deverá permitir alinhamento de agendas, atendimento ordenado a demandas, exploração de atributos de excelência e encaminhamento de demandas e correções necessárias – como por exemplo, no atendimento mais objetivo pela academia de demandas efetivas e atuais da indústria e da sociedade em geral.

qual o conteúdo do estudo?

estruturado em quatro partes, o estudo faz inicialmente uma avaliação sobre como as indústrias brasileiras estão entendendo e utilizando o design, traçando a seguir um panorama do setor de design no país, seguindo com um apanhado de referências internacionais para o setor, e finalizando com o estabelecimento de um conjunto de cenários possíveis para o futuro do setor.

partindo de uma proposta metodológica simples e clara – até mesmo para poder enfrentar as dificuldades esperadas em se conseguir dados sobre o setor – o estudo utiliza ferramentas avançadas de análise de gestão de design e inovação (como o international design scoreboard e a design management staircase) para traçar o retrato do design na indústria brasileira, a partir de nove segmentos selecionados. isso permite estabelecer um entendimento inicial sobre o uso do design por esses diversos setores, e por extensão, pode-se falar no uso geral do design pelas empresas brasileiras. a análise dos dados permite ainda comparar a situação do nosso país com outros dois países da américa latina sobre os quais existem alguns dados disponíveis (uruguai e colômbia) e com outros países do mundo, permitindo uma avaliação preliminar da nossa competitividade em design.



ao analisar o mercado de design brasileiro, o estudo aponta fragilidades na “baixa formalização e falta de organização do setor”. aponta-se ainda a falta de estudos sobre o design agindo sobre o mercado, resultando numa aguda falta de dados para que se possa refletir adequadamente sobre o setor. ainda assim o estudo traça um excelente panorama da inserção do design no país, o crescimento apresentado pelo setor nos últimos anos, e as ações governamentais que procuram dar suporte à este crescimento. os modelos de negócios adotados pelo mercado de design no brasil, as relações entre design e novas tecnologias, e os componentes da cadeia produtiva do design são também pormenorizados no estudo. ao analisar as patentes depositadas no país, o estudo levanta dados preocupantes no que diz respeito ao baixo número de registros feitos por empresas brasileiras frente ao elevado número de depósitos de patentes feito no brasil por empresas estrangeiras – entre os dez maiores depositantes de registros de desenho industrial no país, há somente duas empresas brasileiras.

outra grande contribuição do estudo está no tema do perfil do designer, sua formação e habilidades demandadas pelo mercado atual e futuro. formação profissional, publicações, relações entre academia e mercado, produção de conhecimento, analise de distribuição regional no território nacional, são alguns dos temas abordados. contribuições trazidas de programas como o defining the designer of 2015 (aiga e adobe) e reflexões de pensadores como john maeda pontuam o texto. vale uma boa leitura e reflexão sobre o tema.

outro quadro que demanda reflexão é o tema das estruturas de financiamento ao design existentes no país – que sem dúvida superam as expectativas de leitores designers. certamente é mais do que imaginamos, e demonstra que talvez o segmento deva se preparar melhor para fazer uso dos recursos que estão sendo mobilizados, além de cobrar muitas vezes maior clareza ou adequação dos programas às realidades nacionais ou regionais. comparar as demandas do mercado, a oferta de profissionais, e a disponibilidade de recursos é um interessante exercício a ser feito, e para o qual o estudo fornece dados amplamente. todos esses dados são considerados à luz do conceito de sistema nacional de design, introduzido pelo estudo a partir de conhecimento gerado recentemente sobre o tema em outras regiões do mundo. o estudo destaca ainda a importância do reconhecimento da profissão de designer nesse contexto, e da criação de uma agência nacional que continuamente desenvolva estudos, estruture e implemente políticas para o setor, centralizando e distribuindo dados e recursos.



toda a extensão dos dados coletados a analisados e das informações oriundas de diversas fontes permite traçar, ao final do estudo, três cenários hipotéticos para o design no brasil – conservador, moderado e otimista. o primeiro, mais do que conservador, é na verdade um cenário bastante pessimista, até porque o estudo permite enxergar a clara evolução do setor de design ao longo dos últimos anos, e seria extremamente negativo considerar que poderíamos regredir após tantas conquistas. que seja então o cenário otimista a prevalecer, com um crescimento que nos permita alcançar posições maiores e melhores tanto internamente quanto no âmbito da competitividade comercial e do desenvolvimento do país.

como esse estudo pode ser utilizado?

universidades, associações, instituições ligadas ao design devem especialmente fazer uso do conhecimento, das ferramentas, e dos resultados deste estudo. governos locais – estados e municípios – devem usar este estudo como motivador para estabelecer mecanismos que permitam usar com maior frequência o design como ferramenta de transformação econômica, política e social. um bom começo seria promover debates sobre o seu conteúdo e sobre como aperfeiçoar os indicadores que aparecem no estudo. o que queremos? para onde queremos caminhar? qual o papel que o design pretende exercer na sociedade? estamos preparados para exercer esse papel transformador? o que nos falta para isso?

eu particularmente acredito que nos falta bastante. gui bonsiepe diz desde os anos setenta que os designers precisam aprender a se comunicar com o governo, e john heskett diz que nós precisamos aprender a produzir em termos políticos – e política é completamente diferente de projetos de design. produzir em termos políticos significa entender que precisamos ceder, precisamos buscar consenso, precisamos buscar realizar o possível, sem que seja necessário deixarmos de ter um ideal. mas é necessário entender que não podemos, em termos políticos, rejeitar tudo que não seja o nosso ideal. até mesmo porque o nosso ideal pode não ser o ideal de todos.

finalizando, o diagnóstico do design brasileiro inaugura uma nova era para o entendimento do design como ferramenta de desenvolvimento e inovação no brasil. cabe a nós designers aprender a usar estas novas ferramentas de gestão que passamos a dispor para estabelecer processos de colaboração com o governo, o mercado e a sociedade. não podemos esperar que apenas o governo faça a sua parte – precisamos entender muito bem qual a nossa responsabilidade deste processo, e nos engajarmos proativamente para promover as transformações que acreditamos que o design pode trazer para a sociedade.


1. miasaki,d.; pougy,g. (2006), demanda por design no setor produtivo brasileiro, centro design paraná, curitiba.
2. miasaki,d.; pougy,g.; saavedra,j. (2006), panorama das ações de design no brasil, centro design paraná, curitiba.
3. malaguti,c.; scapin,a. (2011), termo de referência para atuação em design, sebrae-sp, são paulo.



[este post foi publicado originalmente no blog da adg]

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

design & economia

(as aventuras de um designer no mundo dos economistas)



há cerca de seis anos, quando decidi fazer o meu doutorado sobre políticas de design, uma das primeiras pessoas com quem conversei a respeito foi o economista e professor da esdi, wandyr hagge. eu acreditava (e continuo acreditando), que políticas de design são uma ferramenta de promoção do desenvolvimento, e portanto dizem respeito sobretudo à economia. ao ser convidado para fazer meu doutorado na universidade de cranfield, pesou na decisão o fato da escola de negócios de cranfield ser uma das maiores referências mundiais na área de gestão, e que esta escola teria (tem) uma interação contínua com o centro de design competitivo e criativo, o c4d. finalmente, duas das maiores referências na construção da minha pesquisa e do meu pensamento sobre políticas de design foram um designer que sempre enfatizou o papel relevante do design dentro da economia e da promoção do desenvolvimento (gui bonsiepe) e um economista britânico com quem tive a grata satisfação de discutir mais de uma vez o conteúdo do meu trabalho, o professor john heskett. ao voltar para o brasil, em 2013, fui convidado pela economista lídia goldenstein para participar de um debate fechado no british council, em são paulo, sobre economia criativa assunto sobre o qual escrevi recentemente aqui no blog (este debate deve virar livro em breve). tenho encontrado ainda alguns bons interlocutores na área da economia, dispostos a considerarem do design para além do óbvio, e isso me conduziu a excelentes diálogos e descobertas, que eu gostaria de explorar ainda mais e melhor futuramente.

coerente com essas experiências, decidi ir mais fundo na semana passada, e assistir a um seminário de e para economistas, que tratava sobre economia e desenvolvimento, e foi promovido pelo centro de altos estudos brasil século xxi, que é um programa do centro de gestão e estudos estratégicos (cgee). o seminário brasil em perspectiva reuniu no rio de janeiro, nos dias 14 e 15 agosto de 2014, economistas do quilate de maria da conceição tavaressamuel pinheiro guimarães neto, e ricardo bielschowsky, para citar apenas alguns (para ser justo, havia também alguns poucos geógrafos, planejadores públicos, e talvez uma ou outra especialidade). estruturado em cinco mesas, o seminário abordou os seguintes temas:

• geopolítica do desenvolvimento
• construção do estado de bem estar social
• frentes estratégicas de expansão econômica
• marco macroeconômico do modelo de desenvolvimento brasileiro
• a questão urbana e o ordenamento do espaço econômico

devo dizer que, antes de mais nada, aprendi bastante com as magníficas aulas recebidas de tantos mestres. desde a abertura do evento com o economista samuel guimarães, com o seu discurso extremamente cético e quase fatalista (para dizer pouco), que ao final fez a platéia rir quando tentou explicar que sua apresentação encobria na verdade uma visão otimista de futuro! tanto ele como josé carlos braga e outros palestrantes destacaram que a herança de bretton woods (o chamado "consendo de washington") está em xeque e caminha para uma mudança significativa. o banco mundial (bm) e o fundo monetário internacional (fmi), criados a partir de bretton woods respectivamente para prover recursos para investimento em infraestrutura (bm) e para restabelecer o equilíbrio interno das economias dos países periféricos (fmi), tem hoje os seus papéis questionados com a recente proposta da criação do chamado banco dos brics. o novo banco de desenvolvimento foi criado agora em julho de 2014, durante a conferência dos brics em fortaleza. segundo os palestrantes, o grande diferencial e vantagem do banco dos brics é seu desatrelamento das condicionantes políticas que sempre caracterizaram a atuação do banco mundial e do fundo monetário internacional. embora as relações econômicas entre os países dos brics seja considerada ainda no nível das relações bilaterais (ou até tênues, como foi dito em relação às relações do brasil com a rússia e africa do sul), esta ação conjunta deverá "preservar a capacidade soberana de desenvolver as políticas internas".

clemente ganz lucio, do dieese, chamou a atenção para o déficit estrutural da qualificação da força de trabalho no brasil. segundo dados que ele citou, as pequenas e médias empresas (pme) brasileiras atingem apenas 10% da produtividade das grandes empresas, enquanto em países como a frança e alemanha as pequenas empresas atingem índices de produtividade de 50% e 60% respectivamente. além disso, cerca de 80% dos empregos gerados nas nossas pme tem faixa salarial média de 1,5 salário mínimo. define-se com isso uma verdadeira crise de produtividade vivida em nossas pequenas empresas, em que pese a nossa vivência atual de uma melhor articulação do crescimento econômico com os objetivos sociais, segundo destacou eduardo fagnani (instituto de economia da unicamp). com nosso crescimento puxado pela demanda doméstica (segundo esther dweck, citando thomas palley, 2002), vivemos no que ricardo bielschowsky identifica como a terceira fase do desenvolvimento brasileiro desde os anos cinquenta, aonde o nosso desafio maior está na indústria de transformação. 

a extrema concentração da nossa indústria foi exemplificada por rodrigo simões (ufmg e ipea) como o que ele chamou de "fordismo periférico": na década de setenta, 6 entre cada 10 produtos consumidos no brasil eram produzidos no estado de são paulo, sendo 4 destes produzidos na cidade de são paulo. simões chamou a atenção também para o abuso do modelo de arranjos produtivos locais, ou apls, dizendo que muitas vezes ocorre a montagem forçada de arranjos artificiais e ineficientes, bem pouco produtivos e sem tanta identidade local.

josé eduardo cassiolato (ufrj) tratou de alguns assuntos especialmente relevantes para designers, a começar pela comoditização da produção, citando como exemplo a produção de roupas em bangladesh e os malefícios enormes que decorrem desse processo - alimentados pela voracidade do consumo na indústria da moda de baixo custo. falou ainda das políticas de estímulo industrial, aonde o papel do estado deve se fazer presente também nas compras públicas, como um importante instrumento de desenvolvimento de setores industriais. segundo ele, estamos vivendo a emergência de um novo paradigma produtivo ancorado na sustentabilidade - o "green new deal". estimativas feitas pelo hsbc (climate for recovery - the colour os stimulus goes green, 25 february 2009) avaliam que os estímulos econômicos regionais para desenvolvimento sustentável ("green stimulus") alcançavam 430 bilhões de dólares em 2009, sendo que somente a china contribuía com 221 bilhões desse montante, e os estados unidos com 112 bilhões. toda essa disponibilidade deve ser utilizada com propriedade, evitando-se por exemplo a importação de tecnologias inadequadas (qualquer semelhança com o que o designer gui bonsiepe diz desde os anos setenta não deve ser mera coincidência!). foi mencionada como exemplo a importação de captadores eólicos para o nordeste brasileiro a um custo desnecessariamente alto, uma vez que estavam projetados para enfrentar ventos multidirecionais em rajadas e temperaturas muito baixas (padrão europeu) ao invés de considerar os ventos mais direcionados e altas temperaturas do nordeste brasileiro. não houve, segundo cassiolato, a necessaria interação entre as empresas transnacionais e os institutos de pesquisa e universidades brasileiras, nem a correta aplicação dos recursos disponíveis para cti (ciência, tecnologia & inovação), a não ser como mecanismo de suporte ao repasse de lucros para as matrizes dessas empresas. cassiolato aponta ainda os baixos recursos disponíveis para a inovação social - frente à ampla disponibilidade para indústrias de base científica e tecnológica, e até mesmo ao volume de recursos repassados às indústrias automobilísticas no país. 

enfim, são muitos temas para o design atuar e para designers debaterem e se envolverem na busca de soluções para o desenvolvimento econômico nacional, regional e local! e muitas oportunidades para dialogarmos mais com o pensamento econômico na construção de políticas públicas. certamente o design pode ser uma ferramenta efetiva e eficaz para tratar dos muitos passivos decorrentes dos desafios sociais e ambientais gerados pelo desenvolvimento econômico, agregando estratégias de enfrentamento dos problemas e da construcão coletiva de soluções sustentáveis.

obviamente não perdi a oportunidade de lembrar aos participantes do seminário que já em 1882 ruy barbosa, em discurso da inauguração do liceu de artes e ofícios no rio de janeiro, falava do enorme potencial competitivo do nosso país, além de condenar a economia baseada exclusivamente na exportacão de recursos naturais não-manufaturados e outras commodities. melhor ainda, ruy barbosa apontava a importância do design para construir um caminho de industrialização e de competitividade associada ao nosso potencial inovador e os recursos naturais disponíveis, que podem gerar produtos com alto valor agregado para exportação. 

exemplos não nos faltam, competência também não - mas talvez estejamos com muita frequência errando o alvo na nossa atuação profissional. certamente nos falta dialogar muito mais com a área da economia, assim como interagir com muito mais frequência e intensidade com o governo em todos os níveis.


(...e que me desculpem os economistas pelo excesso de simplificação, mas foi o pouco que pude absorver de tanta informação de qualidade concentrada em dois dias intensos)

ps: ao final do evento, houve a exibição do excelente documentário "um sonho intenso", seguida de debate com o diretor josé mariani, o economista ricardo bielschowsky e o jornalista luis nassif. excelente filme que eu recomendo a todos que queiram entender um pouco sobre economia no brasil do século vinte ao vinte e um. leia aqui um artigo sobre o filme e assista o trailer.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

design - produto e processo

sobre design, cultura e economia



faz alguns (poucos) anos que um segmento da economia passou a chamar muita atenção pelas suas elevadas taxas de crescimento. pesquisa divulgada em janeiro de 2014 pelo governo britânico reforça ainda mais o que vinha sendo observado anteriormente: o segmento das chamadas indústrias criativas alcançou uma taxa de crescimento superior ao setor financeiro no reino unido. as indústrias criativas britânicas faturam oito milhões de libras (mais de trinta milhões de reais) por hora, ou quase setenta e dois milhões de libras por ano, respondendo por 5,2% da economia britânica [ver link aqui]. isso certamente é algo que salta aos olhos e impressiona. diante de resultados semelhantes, governos de diversos países tem buscado incentivar este segmento tão heterodoxo entendido como "criativo" [ver site das nações unidas sobre este tema].

de acordo com a definição aceita internacionalmente, o design é uma dessas indústrias cuja performance tem sido celebrada. no brasil, o ministério da cultura passou a ter uma secretaria da economia criativa, e o design foi incorporado neste programa, além de passar a fazer parte do conselho federal de cultura.

neste contexto, ao mesmo tempo que celebramos mais uma porta que se abre para a promoção e o crescimento da atividade de design, existe uma questão a ser observada: a existência de uma secretaria de economia (ainda que criativa) no ministério da cultura. isso significa que questões ligadas à economia estão sendo tratadas sob a ótica da cultura. no entanto não há notícia do caminho oposto - das indústrias criativas serem consideradas com esta mesma importância dentro da área da economia.

no que diz respeito ao design, embora o seu produto possa ser considerado como elemento da cultura nacional, o seu processo (enquanto estratégia) deveria ser considerado no contexto da economia.

simples assim: produto => cultura; processo => economia.


deslocado desse contexto da economia, o design volta a ser tratado como arte industrial, retorna ao século dezenove. dissocia-se da indústria, da tecnologia, da inovação e da competitividade - a não ser como um insumo criativo. deixa de ter a importância que lhe é atribuída hoje como motor da inovação exatamente por estabelecer a liga indispensável entre a tecnologia, a indústria e o usuário. observe-se que esse papel estratégico não é atribuído ao design por suas qualidades criativas, ou meramente estéticas, mas antes por sua capacidade transdiciplinar de traduzir e aplicar o conhecimento proveniente de diversas fontes. no reino unido o design está sendo promovido como a ferramenta ideal de transformação do conhecimento científico desenvolvido em laboratórios de ponta em produtos e aplicativos capazes de serem industrializados e comercializados, trazendo benefícios para a sociedade como um todo ao transformar conhecimento científico em crescimento econômico [links aqui e aqui]. essa é uma função econômica antes de tudo, e não apenas "criativa". isso sem falar no design de estratégias, de serviços, do papel que as ferramentas do design tem representado na gestão das empresas.

embora alguns designers possam escolher este caminho, o design não é arte - pois ele vai muito além dos atributos estéticos do produto. nos dias atuais o papel do designer não é mais o de autor, mas de membro de uma equipe, e muitas vezes até mesmo um líder de equipe, fazendo uso de ferramentas trazidas da metodologia de projeto para gerir processos complexos. hoje o design está presente desde o momento em que se pensa o próprio negócio, em como este se comunica, e obviamente quando se planejam os produtos. desenvolver o produto é juntar os interesses, necessidades e aspirações dos usuários com as limitações da produção, distribuição e comercialização, com os materiais adequados, considerando o impacto ambiental envolvido na fabricação e no descarte, e ainda contemplar os objetivos do empresário, gerando lucro e outros benefícios.

no brasil, pela forma com que o design tem sido associado às indústrias criativas, corre-se o risco de se entender que uma vez que o design já está sendo contemplado entre as politicas culturais, não haveria necessidade de considerá-lo também entre as políticas econômicas, industriais e tecnológicas. esse é um sério risco que não podemos correr.

não se trata portanto de negar a presença do produto do design como parte do ambiente cultural do país, nem de negar a forma como o design interage com as demais indústrias criativas, mas sim de reivindicar o seu entendimento dentro do contexto da economia e das políticas industriais, de inovação, e de ciência e tecnologia - como aliás vem acontecendo em países altamente competitivos.

"it's the economy, stupid!" - foi um slogan amplamente utilizado na campanha presidencial de bill clinton em 1992. sem pretender usá-lo aqui de maneira ofensiva ou indelicada, acho que vale a sua citação como um lembrete para situarmos o design aonde este deve realmente estar.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

porque se associar?



recentemente resolvi tornar pública minha filiação à duas associações profissionais: a adg e a adp. como isso despertou alguns comentários de colegas e amigos sobre a validade de se pertencer a uma associação, resolvi esclarecer os meus motivos para me filiar – e porque me filiei somente agora, já que advogo há muito tempo a importância de que todos os designers se filiem às associações existentes.

antes de mais nada: fui associado ativo da apdins-rj num passado remoto (anos 1980). o fim da apdins-rj (1) e a derrocada da nossa organização profissional mais ou menos coincidiu com a minha dedicação crescente à atividade acadêmica na esdi. isso no entanto não chegou a me aproximar da associação de ensino, pois a aend-br (associação de ensino e pesquisa de nível superior em design do brasil) estava mais ligada à pesquisa acadêmica enquanto eu, tendo apenas a formação básica - graduação em design de produto e programação visual pela esdi - não estava engajado em atividades desta natureza. houve portanto um (grande) hiato na minha história de “associado”, apesar da minha atividade, por exemplo, na articulação do fórum brasil design (2) em 2008/2009 – fórum reunindo quase todas as associações brasileiras de design para discutir as questões que afetam a atividade (3) como um todo.

em 2009, quando saí do brasil para fazer meu doutorado no reino unido, não havia ainda a opção de se filiar às associações de designers gráficos e de produto na categoria 'professor', como existe agora, e minha atividade profissional na época se resumia à atividades acadêmicas e algumas consultorias, principalmente na área de interface entre design e propriedade intelectual. por outro lado, minhas tentativas de me filiar à entidade que me representaria talvez melhor atualmente, a associação de ensino e pesquisa de design, frustraram-se porque esta se encontrava numa fase 'retraída'. como diz o professor marcos braga, que pesquisou a atividade profissional do design no brasil, as associações tem um comportamento cíclico, de picos e vales, sendo muito difícil manter-se estáveis ao longo do tempo.

sobre porque se associar:

sendo o associativismo a forma básica de organização da sociedade civil, ao exercermos uma atividade profissional complexa e de efeitos políticos e sociais tão óbvios como o design não podemos nos manter isolados e à margem dessa organização. precisamos debater as questões da nossa atividade como classe, e sempre estendendo esse debate à sociedade como um todo. precisamos nos comprometer com o debate, e não achar que é possível ficar à margem, como observadores isolados. não existe observador isolado. o facebook não é o mundo. podemos pensar novas formas de ação e de associação, mas não podemos querer reinventar a roda sempre (ou rediscutir o significado da palavra design a cada vez que nos reunimos...), assim como não podemos criar mais e mais associações, esgarçando, diluindo e fragilizando cada vez mais a nossa atividade.

por isso eu convido a todos: associem-se, reúnam-se, debatam, participem, contribuam para o crescimento da atividade que exercemos com tanta paixão. somem-se a outros associados para que nossa atividade, lado a lado com outras tantas áreas próximas e complementares, traga uma contribuição efetiva para a sociedade. não se trata apenas de quais vantagens pessoais a associação pode trazer para você, mas sim de qual a importância coletiva da sua participação nas associações. somente associações fortes podem trazer boas vantagens para os associados. e somente através de uma significativa representatividade conseguiremos finalmente fazer da atividade do design uma mola propulsora para o desenvolvimento econômico e social do país.

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(1) saiba mais sobre a apdins-rj no livro do professor marcos braga (link aqui)

(2) leia mais sobre o fórum em posts antigos aqui e aqui

(3) nota: prefiro me referir à 'atividade' e não à 'classe', pois me é mais importante o que diz respeito de forma ampla à atividade do design, e não apenas as questões restritas à classe profissional e suas demandas, digamos assim, mais trabalhistas e sindicais.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

influências européias em políticas públicas de design no brasil

estabelecer conexões entre políticas públicas de design no brasil e na europa faz parte da minha pesquisa de doutorado. uma pequena parte da pesquisa foi apresentada em outubro de 2011 no sexto congresso internacional de pesquisa em design - ciped 2011, em lisboa. trata-se mais de um exercício do que uma antecipação, afinal uma das exigências do doutorado é exatamente a produção de artigos tanto para conferências como para publicação em revistas acadêmicas.

este é portanto um desses exercícios. o texto integral, de minha autoria em conjunto com o professor simon bolton, pode ser encontrado aqui.

abaixo segue a apresentação feita durante o congresso:




quarta-feira, 18 de maio de 2011

regulamentação. um caso sério.

foi apresentado hoje, dia 18 de maio de 2011, na câmara dos deputados em brasília, o projeto de lei 1391/2011 que dispõe sobre o exercício profissional de design (ok, o projeto diz "de designer", mas diante de tantos problemas enfrentados até aqui, digamos que esse é um problema menor, que poderá - espero - ser corrigido a tempo). o projeto foi apresentado pelo deputado josé luiz penna (pv-sp) e pode ser encontrado no site do deputado.

para acompanhar a tramitação do projeto, cadastre-se no site da câmara dos deputados.

a adegraf colocou há algum tempo em seu site uma apresentação sobre regulamentação profissional. e eu mesmo já fiz um longo post sobre o assunto (regulamentação, ou design e o seu zé da venda), com diversos links e seguido por muitos comentários interessantes. e tem ainda dois excelentes textos, dos professores freddy van camp e mauro pinheiro. não deixem de ler!

a regulamentação profissional é apenas um passo num processo de reconhecimento pela sociedade da atividade de design. faz parte da cultura do nosso país regulamentar. então, sem regulamentação não há reconhecimento.

e por favor colegas - já discutimos essa questão há mais de trinta anos - é hora de nos unirmos em apoio ao projeto, que significará um grande avanço para a atividade de design no país. não é um projeto que traz vantagens pessoais, mas sim uma contribuição significativa para o efetivo reconhecimento da importância da atividade para a nossa sociedade.

vamos todos apoiar!

updates 1 e 2 (20.5.2011)

1. algumas considerações adicionais:

precisamos ter limites à nossa atividade, limites éticos, por exemplo, responsabilidade sobre a péssima qualidade de muitos projetos que vemos por aí que desabonam a atividade profissional.

para um empresário, especialmente para o pequeno empresário, uma primeira experiência ruim com um designer significa uma experiência ruim com o design como atividade, como solucionador de problemas.

regulamentação traz reconhecimento da sociedade, do governo, e de outros campos profissionais. reconhecimento e respeito. é lógico que isso não se faz somente através da regulamentação, mas esta é um passo importante nesse sentido, pelo qual debatemos e lutamos há trinta anos pelo menos.

2. esclarecimento:

somente hoje soube da origem e encaminhamento do projeto. afinal, como estou residindo fora do brasil, não tenho acompanhado de perto o assunto, apesar de fazer parte virtualmente, por skype, de uma comissão da abedesign que discute outros aspectos da regulamentação como classificação estatística, fiscal e trabalhista.

então, vale o esclarecimento: o encaminhamento deste projeto, feito pela associação de designers de produto, adp, através do ernesto harsi, faz parte da agenda discutida no forum design brasil, entidade que reune todas (ou a quase totalidade) das associações representativas do design no país. lá, discutiu-se que a adp, por já estar trabalhando nessa questão, continuaria a encaminhá-la. isso reforça o caráter de legitimidade e representatividade do projeto e, como o ernesto harsi lembrou, esta formatação do projeto foi discutida em associações profissionais e de estudantes. não havia possibilidade de discussão mais ampla do que essa. porque? porque não temos nenhum congresso ou encontro nacional que reúna a classe como um todo (do porte dos antigos endi - encontro nacional de desenho industrial); muito poucos dos nossos profissionais são membros regulares de alguma associação, que são a única forma organizada de representação da classe (nesse aspecto, os estudantes estão muito mais organizados e tem maior representatividade, a partir da organização dos ndesign e da forma de representatividade adotada). quero com isso dizer que a ampliação do debate - deste ou qualquer outro que intesse à classe - passa por cada um de nós: ou nos associamos, ou perdemos voz. e se não fizermos esse movimento, não teremos nenhuma, absolutamente nenhuma, legitimidade para protestar depois sobre o que foi feito pelas associações em nome da categoria. pois esse é exatamente o papel das associações - representar a categoria como um todo, e não apenas um pequeno grupo de associados.

por sinal, a adg colocou nota hoje no facebook e no website lembrando que o projeto é "fruto da discussão em um comitê onde participaram as principais associações no país."

em resumo, esse é o meu recado: faça sua parte antes que alguém faça por você e em seu nome - procure uma das associações profissionais e associe-se agora!

domingo, 2 de janeiro de 2011

a história de dois logos

o primeiro: jogos olímpicos rio 2016



o logo para jogos olímpicos rio 2016 foi lançado durante a festa de dois milhões de pessoas no reveillon da praia de copacabana, no rio de janeiro. com design da tátil (uma das melhores empresas de design brasileiras), é consequência de um processo que começou há vários meses, numa concorrência promovida pelo comitê olímpico brasileiro com assessoria da associação de designers gráficos, adg brasil, da associação brasileira de empresas de design, abedesign, da associação brasileira das agências de propaganda, abap, e do conselho executivo de normas-padrão, cenp. o edital foi elaborado com base nas recomendações do icograda, conselho internacional de associações de design gráfico, e todo o processo foi supervisionado pela adg, com regras claras e justas. 139 agências de design participaram, das quais oito foram selecionadas e contratadas para desenvolver conceitos. o logo vencedor foi escolhido (e posteriormente desenvolvido para o lançamento) por um time de 15 pessoas que incluía representantes das instituições envolvidas e diversos experts. um processo transparente e bem gerenciado.

o resultado: conceitualmente bom, equilibrado, com desenvolvimento cuidadoso do lettering, inquestionavelmente um trabalho de alto profissionalismo, e que sugere um número de boas aplicações - inclusive uma belíssima versão tridimensional apresentada na festa de lançamento.

antes de ler sobre o próximo logo, assista os dois videos inspiradores abaixo - o lançamento oficial do logo e um documentário sobre o processo criativo:







o segundo: copa do mundo de futebol da fifa - brasil 2014



o logo da copa do mundo de futebol da fifa - brasil 2014 foi lançado no final da copa do mundo na áfrica do sul, em julho passado. no entanto, havia vazado para a imprensa há pelo menos dois meses - outro tropeço num processo bem menos transparente do que o da concorrência para a marca dos jogos olímpicos do rio.

inicialmente a mesma adg brasil foi convidada para assessorar o processo da concorrência, mas aparentemente se retirou por discordâncias nunca bem esclarecidas, obscurecidas por um acordo de confidencialidade. a marca final foi desenvolvida pela agência de publicidade que já atendia a fifa no brasil, a agência áfrica. de acordo com a fifa, outras sete empresas participaram da concorrência, mas nunca se soube quais novamente em virtude de acordos de confidencialidade. a escolha final ficou a cargo de uma "comissão de notáveis" composta pelo presidente da confederação brasileira de futebol, pelo secretário geral da fifa, pelo escritor paulo coelho, a cantora ivete sangalo, a top-model gisele bundchen, o arquiteto oscar niemeyer (aos 102 anos) e o designer pop-star "brasileiro" (nascido na alemanha) hans donner. sem dúvida não era um comitê com enfoque técnico.

o logo foi apresentado sob severas críticas, especialmente dos designers brasileiros, que se sentiram mal representados especialmente quando a qualidade do design brasileiro conquista espaços - e muitos prêmios - no mundo inteiro. foram apontados o desenho infantilizado, vários problemas construtivos, um péssimo lettering e até mesmo o uso desproporcional dos símbolos de marca registrada e copyright, todos considerados sinais claros de uma criação não-profissional. e a marca tornou-se conhecida como um rosto escondido pela palma da mão numa atitude envergonhada.

e qual a relação disso com políticas de design?

muito simples: concorrências públicas e licitações de design devem ser conduzidas por associações profissionais de designers, ou com seu contínuo assessoramento. existem regras claras e internacionalmente aceitas para gerenciar esses processos, desenvolvidas após décadas de experiência por instituições como o conselho internacional de associações de design gráfico, icograda, e o conselho internacional de sociedades de design industrial, icsid. ignorar isso expõe ao risco o processo e os resultados.


(versão em inglês deste post: www.designpolicies.com)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

apoio ao design no rio de janeiro

a faperj, em conjunto com a firjan e o sebrae/rj, acaba de lançar edital de 2,7 milhões de reais para apoiar o desenvolvimento de design de produto e embalagens. é uma iniciativa que acredito ser inédita, que vem se somar aos esforços promovidos pelo estado do rio de janeiro para consolidar de uma cultura regional de design criativa e inovadora.

o estado tem uma capacidade instalada única de ensino e pesquisa, aliados a um mercado profissional altamente qualificado. no entanto, necessita ainda de melhor interagir com o interior, que tem um rico potencial a ser explorado com a contribuição do design.

são dez escolas de graduação; dois mestrados e um doutorado; laboratórios de pesquisa em design instalados na esdi e na puc; um extraordinariamente bem aparelhado laboratório da divisão de desenho industrial do int; o centro design rio e o centro carioca de design; e ainda os resultados cada vez melhores apresentados pelo setor profissional.

tudo isso, aliado ao desenvolvimento econômico (e social) do estado, nos permitem ter uma visão otimista neste final de ano.

que continue melhorando mais em 2011!

sábado, 11 de dezembro de 2010

políticas de design - entrevista ao garatuja digital

há poucas semanas, o rodrigo schoenacher me perguntou se eu poderia responder a algumas perguntas para o seu - excelente - blog garatuja digital. "apenas três perguntas" - disse ele - mas que me deram a oportunidade de discorrer um bocado, ainda que superficialmente, sobre o assunto que tenho pesquisado tanto no meu doutorado. com a autorização do rodrigo, reproduzo abaixo o conteúdo dessa entrevista:

1) você tem um blog chamado "políticas de design". poderia explicar um pouco mais o que significa o termo "políticas de design"?

na minha pesquisa me refiro a "políticas de design", ou melhor, "políticas públicas de design" como sendo princípios estabelecidos pelo governo para fazer uso do design como ferramenta estratégica de desenvolvimento social, econômico, industrial e regional. estas políticas são geralmente pública e explicitamente estabelecidas, para que possam ser conhecidas e acompanhadas na sua implementacão.

2) como você vê a atual situação das políticas relacionadas ao design no brasil em comparação a outros países?

o brasil tem uma aproximação recente e ainda esparsa nesta área. não temos, como alguns países, uma "política nacional de design", nem tampouco uma entidade articuladora de políticas públicas nos moldes do design council britânico ou do kidp da coréia do sul. ambos atuam com suporte direto do governo, e desenvolvem projetos, programas e ações de interesse do governo e da sociedade. ambos contam com equipes especializadas e bem montadas, parcerias com universidades, associações profissionais e empresas. o design council foi criado pelo governo do reino unido ainda durante a segunda guerra, em 1944, para promover o desenvolvimento da indústria britânica e impulsionar a economia quando acabasse a guerra. mas iniciativas neste sentido já se manifestavam desde o século dezenove, com as grandes feiras mundiais - especialmente a partir da exposição internacional de londres, em 1851. e organizações profissionais de designers surgiram no reino unido, nos estados unidos e em outros países ainda nas primeiras décadas do século vinte. assim, mesmo com golpes como a recente crise econômica, que fez com que o governo britânico cortasse o aporte direto de recursos para o design council (anunciado agora em outubro), este ainda consegue se articular para manter-se atuante e encontrar recursos para sobreviver.

no brasil, podemos falar de intenções pioneiras desde o final do século dezenove. no entanto foi nos anos cinquenta, nos estados de são paulo e rio de janeiro que foram feitas as primeiras iniciativas de trazer o design como era visto então na europa, através de cursos livres e workshops com designers de renome internacional. e no início dos anos sessenta o governo do recém criado estado da guanabara inaugurava a esdi, trazendo o design para dentro da universidade e pretendendo formar adequadamente os profissionais necessários para alavancar a indústria nacional. podemos falar que hoje temos na escala federal inserções ainda pequenas mas significativas no ministério do desenvolvimento - o programa brasileiro de design, e no ministério da cultura. e ainda alguns estados tem estabelecido mecanismos de colaboração continuada, como é o caso do grupo consultivo de design que assessora o governo do estado do rio de janeiro desde 2007, através da secretaria de desenvolvimento. a colaboração do segmento de design com o governo do rj já havia gerado, desde o início da década, o programa rio faz design, com exposições, premiação e outros pequenos eventos. o estado do paraná tem também oferecido suporte ao design, com o centro de design paraná, o mais ativo do país, e que tem oferecido apoio estratégico ao programa brasileiro de design.

ainda temos muito espaço para crescer, portanto, apesar de algumas importantes iniciativas estarem se sedimentando nos últimos anos. a bienal brasileira de design e a brazil design week são exemplos disso, e a iniciativa do fórum brasil design (reunindo todas as associações profissionais e acadêmicas brasileiras), trazem contribuições fundamentais. A bienal de design gráfico da adg e o salão design movelsul / casa brasil, em bento gonçalves, são iniciativas que já alcançam maturidade e projeção internacional, mostrando para a sociedade a importância do bom design. e temos um mercado editorial crescente, editando bons livros e boas revistas, apoiado na grande quantidade de escolas de design e profissionais atuantes. muitas outras iniciativas contribuem para promover o design no país, embora muitas vezes de forma cíclica e desconexa. mas falta ainda esse elemento articulador, que possa circular entre as iniciativas de origens variadas, formatando, planejando, estabelecendo equilíbrio e fazendo a ligação com as diversas instâncias de governo e da sociedade. e mecanismos de avaliação e controle de qualidade, pois o design desprovido de qualidade pode ser extremamente prejudicial. falo de qualidade no contexto internacional, num patamar que permita e facilite trocas comerciais, profissionais e acadêmicas. desprezar a qualidade pode significar hoje ficar exposto à exploração do mercado local por grandes empresas internacionais de design, por exemplo. e essa qualidade passa inevitavelmente pela formação. nossas escolas precisam se aperfeiçoar bastante para alcançar esse patamar. não adianta ficarmos iludidos que a criatividade brasileira supera tudo - ela é um elemento forte com o qual contamos, mas está longe de ser a solução única.

poderia dizer muito mais sobre o momento atual, que eu vejo como muito positivo, e sobre o futuro que acredito ser promissor, mas como esse é um dos tópicos da minha pesquisa, posso dizer que responderei melhor daqui a dois anos, em 40.000 palavras...

3) o que você acha que os profissionais e estudantes em design podem fazer em relação ao desenvolvimento dessas políticas em nosso país?

em primeiro lugar, se organizar de forma consistente nas associações existentes. se não dermos suporte às associações, não poderemos cobrar que a nossa atividade seja melhor reconhecida. e por falar em reconhecimento, a regulamentação profissional é, no contexto atual, uma necessidade. não dá para se acreditar que, no mar agitado das profissões regulamentadas, iremos sobreviver com um projeto inovador de desregulamentação. chega uma hora em que precisamos, apesar das opiniões diferentes, demonstrar união - senão nunca seremos considerados seriamente. dar suporte às associações significa filiar-se, pagar as taxas regularmente, e contribuir voluntariamente na gestão e nas atividades da sua associação. associações sem associados são cronicamente fracas. e cobrar das escolas uma melhora contínua na qualidade da formação profissional, inclusive a formação continuada, seja esta através de cursos rápidos, especializações, mestrados profissionalizantes. isso deve ser feito em sintonia com as necessidades do mercado regional e buscando apoio de empresas, federações comerciais e industriais, e do governo. se fizermos a nossa parte, poderemos cobrar do governo que faça melhor a parte dele também.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

sobre biônica & design sustentável

no ano passado eu havia prometido postar aqui reproduções dos cartazes e convites de duas exposições que ajudei a organizar em dezembro de 1979 e janeiro de 1980, respectivamente. pois bem, finalmente achei esse material e processei as imagens (ver post de 08.04.2009 aqui). mas achei que devia fazer um post novo sobre isso, afinal o tema é atualíssimo, e é curioso ver o que se falava sobre isso há 30 anos.



a primeira exposição (acima), anunciada pela revista veja em dezembro de 1979, reunia trabalhos dos cursos de desenho industrial da esdi e da escola de belas artes da ufrj. os cartazes e convites já davam o tom: impressos em papel kraft na gráfica da esdi, usando composição tipográfica em tipos móveis e uma ilustração de uma "máquina voadora" que fazia referência a leonardo da vinci, de quem reproduziam a citação: "o pássaro é um instrumento que obedece a uma lei matemática, e o homem possui a capacidade de reproduzir esse instrumento e seus movimentos". a segunda exposição (abaixo) aconteceu na escola de artes visuais do parque lage, e foi a continuação da primeira, agora com a adesão de trabalhos do curso de design da puc-rio. talvez o clima do parque lage (aonde eu estagiava na época) tenha influenciado cartaz e convite, bem mais "radicais" do que os da exposição na esdi. enquanto os primeiros refletiam a racionalidade gráfica esdiana (ainda que interpretada por estudantes de primeiro ano...), os outros, manuscritos e rabiscados e serigrafia e xerox, continham textos de pablo neruda (última estrofe de aqui vivimos - estravagario) e lao-tsé (poema 11 do tao te ching) e uma estética "suja" identificada com a contracultura da época.



infelizmente eu não tenho registro dos projetos apresentados, exceto por umas raras imagens de uma gravação da tve (e do livro esdi: biografia de uma idéia), aonde fui entrevistado sobre dois trabalhos na mostra (fotos abaixo). mas estes dois projetos são bastante representativos da mostra e do que fazíamos e pensávamos naquela época. ambos os projetos foram desenvolvidos na esdi com orientação do professor roberto verschleisser, e dos grupos faziam parte claudio lamas, gil brito e carlos vargas (infelizmente não me lembro se havia mais alguém nos grupos de trabalho)



biônica & biomimética

o primeiro era um estudo de conector metálico baseado na articulação rotular da cabeça do fêmur. biônica pura, seguindo os ensinamentos transmitidos com paixão pelo professor verschleisser, que nos apresentou victor papanek, buckminster fuller, gui bonsiepe e tantos outros autores que fizeram nossa cabeça e ajudam, até hoje, a fundamentar nosso pensamento. aprender com a natureza, observar, estudar e desenvolver conceitos a partir de similares naturais entusiasmou a todos.

há poucos dias li um post do fred gelli no blog da tátil design sobre biomimética - e lá estava todo o entusiasmo que ele (que também foi aluno do verschleisser) mantém sobre o assunto até hoje, inspirando criações premiadas do seu estúdio. vale conferir o trabalho da janine benyus citado pelo fred gelli, e seu livro biomimicry: innovation inspired by nature.



design sustentável: papanek x bonsiepe

o outro projeto, um silo octaédrico em lona plástica, suspenso numa estrutura tubular também octaédrica, que se apresentava como solução para armazenagem temporária de colheitas em áreas parcialmente alagadas.

este tipo de projeto encaixava-se no que gui bonsiepe (autor ávidamente consumido e adorado por nós, então jovens estudantes) definia como tecnologia apropriada, opondo-se ao conceito de tecnologia alternativa, apresentado por victor papanek no seu livro design para o mundo real (nosso livro de cabeceira). bonsiepe acreditava que os países em desenvolvimento deviam utilizar tecnologias que pudessem dominar facilmente, e passando sucessivamente a tecnologias mais sofisticadas. assim ele defendia a adoção incremental de novos conhecimentos, estimulando o desenvolvimento científico e industrial desses países. seu livro teoría y practica del diseño industrial dedica um capítulo a essa discussão: política tecnológica, diseño industrial y modelos de desarollo.

por sua vez, papanek defendia a recuperação de conhecimento local e soluções alternativas às tecnologias correntes, enfatizando a reciclagem e reprocessamento de materiais. a longo prazo, acredito que a visão de papanek manteria ou até mesmo aumentaria a distância entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento, tornando estes últimos mais dependentes de tudo que dissesse respeito à novas tecnologias, mantendo um processo estacionário de reprocessamento semi-artesanal do descarte industrial. me lembro que em 1980 todos fomos assistir victor papanek num seminário na puc-rio, e saímos um bocado decepcionados com sua visão que então percebemos paternalista e sua tentativa de afastamento das questões políticas que envolviam a américa do sul naquele período. isso não impede que seu último livro, publicado originalmente em 1995 - the green imperative - tenha se tornado referência para o pensamento do design sustentável.

esta semana eu assistia um programa na bbc 2 (big ideas, com james may) aonde o apresentador, em uma viagem aos estados unidos para visitar experimentos de geração de energia não-fóssil, chega a uma comunidade alternativa estabelecida nos anos setenta. ali, um dos idealizadores explica que a idéia não é rejeitar novas tecnologias, nem o conforto moderno. a sua casa alternativa tem geladeira, microondas, internet e rede wi-fi. a questão é a auto-suficiência energética, tratamento de afluentes, aproveitamento racional e conservação de água, reciclagem, etc. um equilíbrio entre o apropriado e o alternativo, que sobrevive a mais de trinta anos de experimentação.

por último, já que falei do bonsiepe, a bedford press acaba de lançar um livrinho com suas reflexões sobre o potencial de atuação política do design: design and democracy. leitura obrigatória!

terça-feira, 13 de abril de 2010

se design é importante, cadê o design?



o cgee comitê gestor de estudos estratégicos acaba de divulgar (*) na edição de abril de 2010 do seu boletim, o lançamento de estudos feitos para a abdi sobre o segmento de madeira e móveis:

"o estudo liderado pelo cgee foi demandado pela agência brasileira de desenvolvimento industrial (abdi) e resultou na publicação do panorama setorial – madeira e móveis, volume de 202 páginas e estudo prospectivo – madeira e móveis, de 210 páginas." (leia a notícia completa aqui)

a notícia destaca, em vários pontos, a grande importância do design para que se possa atingir os objetivos do setor. só uma coisa incomoda: apesar disso, não há uma única entidade representativa do design brasileiro listada entre os participantes do comitê gestor do estudo, no final do texto...

não culpo o cgee ou a abdi pela falha, nem a excelente equipe que conduziu o estudo. no entanto, a falha precisa ser corrigida futuramente. acredito que isso seja consequência da fragmentação e enfraquecimento da representação da atividade no país, que nós tentamos combater com a criação do fórum brasil design. ou seja, precisamos reforçar ainda mais as nossas ações se quisermos ser ouvidos. até porque, com uma entidade representativa forte, podemos exigir ser ouvidos.

(*) detalhe curioso: aparentemente os estudos divulgados como novidade no boletim do cgee de abril de 2010 foram lançados no início de julho de 2009, portanto nove meses atrás, e estão disponíveis no site da abdi junto com outras publicações interessantes. vale a pena conhecer os estudos, muito bem elaborados e apresentados. (atenção: os arquivos pdf são bem grandes)

estudo prospectivo madeira e móveis (pdf 47mb)

panorama setorial madeira e móveis (pdf 30mb)

(a imagem das cadeiras foi retirada dos estudos acima)

terça-feira, 16 de março de 2010

regulamentação, ou design e o seu zé da venda

esta semana, respondendo a um post que se posicionava contra a regulamentação profissional no blog designbr, fiz uma série de considerações a respeito, complementando o que o professor freddy van camp já falara a respeito (ver links no final deste post)

bem, começando pelas comparações – em geral muito difíceis – entre países, e só para citar alguns exemplos (afinal, sempre se citam exemplos de países aonde a profissão não é regulamentada…): finlândia, estados unidos, reino unido, tem organismos reguladores da profissão estabelecidos ainda no século dezenove. conselhos nacionais e outros tipos de associações profissionais trabalharam junto aos governos e à sociedade por mais de um século nestes países, estabelecendo uma cultura de design da qual estamos, infelizmente, muito distantes. na finlândia, com uma população de pouco mais de cinco milhões de habitantes, apenas quatro associações profissionais reúnem quase cinco mil associados – isso equivaleria a termos no brasil 200 mil associados às diversas associações de classe existentes no país. e no entanto tenho motivos para acreditar que as nossas associações não chegam a somar três mil associados em todo o brasil hoje!

muitos criticam as associações existentes, e nos comentários do tal post chegou-se a falar em “fracasso” na atuação da adg. ora, eu não consigo avaliar assim uma entidade que promove um evento da magnitude da bienal de design gráfico, que tem cumprido o importante e fundamental papel de mostrar à sociedade brasileira o que é design, e o que é design de qualidade! estabelecer tal patamar é fundamental para a evolução do design no país. afinal, se esperamos que a sociedade vá consumir design de qualidade, ela precisa saber o que é design de qualidade, não é mesmo? e pelo que eu saiba, um dos maiores problemas da adg é a inadimplência – e não há associação profissional que resista a esse mal. parece que a atitude de alguns profissionais muitas vezes tem sido: não gosto de fulano ou de beltrano, não fizeram o que eu queria, então vou sair da associação, vou deixar de pagar a anuidade. as pessoas que dirigem essas entidades tem sido, historicamente, voluntários e abnegados, que conseguem fazer sobreviver as instituições com esforços heróicos e sacrifícios pessoais para promover atividades que beneficiam a todos, inclusive aos não-associados.

acho que todos concordam que não há como avançar sem algum tipo de atuação coletiva, não é mesmo? e porque tornar vilões genericamente os conselhos e apontar as associações como soluções? ambos não são formados pelos profissionais da área? será que devemos eliminar o congresso nacional ou a classe política porque nós a percebemos como dominada pela corrupção? e qual seria a opção? a tirania? o que eu tenho visto funcionar melhor em alguns países do que no brasil é a participação – fruto da cidadania, cuja percepção parece que nos falta às vezes. e não estou querendo dizer que neste ou naquele país a situação seja exemplar ou ideal, pois isso não existe, todos tem problemas e diferentes estágios de evolução no uso do design como ferramenta estratégica de desenvolvimento. mas somos nós os responsáveis por fazer as nossas representações profissionais (ou políticas) darem certo. não posso acusar uma associação profissional ou conselho pela falta de atuação, pois eu também sou responsável por ela, e se faltam ações, essa falha não é apenas de seus diretores, mas é compartilhada pelos associados.

temos que compreender que o gigantismo e a complexidade do estado brasileiro estabeleceram outros mecanismos, que passam pela excessiva regulamentação profissional, diferente de outros países. há um excesso na regulamentação de profissões. mas por isso mesmo não podemos prescindir de ter nossa profissão reconhecida e regulamentada, sob pena de termos a atuação restrita pela legislação que privilegia profissionais regulamentados e limitada pelos setores profissionais que nos tangenciam.

outro ponto: qual é a medida da contribuição do design para a economia de um país? fala-se muito disso, mas como se podem estabelecer mecanismos de avaliação efetivos? no brasil, o ministério da fazenda tem dados atualizados anualmente para os setores regulados, e pode assim dimensionar a sua evolução ao longo dos anos, apenas fazendo uso do código fiscal e da receita correspondente. e isso decorre de uma clara definição da atuação profissional através da sua regulamentação. existem outras maneiras para fazê-lo? certamente, mas ser a exceção à regra é muito mais complicado do que jogar pelas mesmas regras que se aplicam a todos os outros.

um argumento utilizado com frequência diz que a regulamentação nivelaria os preços por cima, ou tornaria os preços de um projeto de design inatingíveis para o “seu zé da venda”. acontece que no brasil ele geralmente investe muito em outras áreas para alavancar o seu negócio – seja em maquinário e outros insumos, ou na ampliação da oficina, da fábrica ou da sua “venda”, que logo se torna mercadinho, e daí a pouco supermercado. mas não sabe que o design pode estabelecer um diferencial para a marca da sua “venda”. como será o que o “seu zé da venda” fica sabendo que esse tal de design pode ajudá-lo? pela presença do design na mídia garantida por eventos da qualidade da bienal de design gráfico, pelas informações e pelo apoio do sebrae, pelo cartão do bndes que agora financia design. mas este continua sendo um problema no mundo inteiro: como ensinar a contratar design? porque contratar um mau designer estraga todo o esforço feito para mostrar ao “seu zé da venda” a importância do design para o crescimento da sua venda. no reino unido, essa é uma das preocupações do design council, que tem programas específicos sobre como contratar um designer para desenvolver o seu projeto, geralmente focados nas pequenas empresas. e essa preocupação existe também em todos os outros países aonde se pretende ordenar e valorizar o trabalho de design. eu mesmo já ouvi depoimentos de micro-empresários sobre o quanto o design contribuiu para o crescimento das suas empresas, assim como, quando tinha a minha empresa de design no rio de janeiro, já negociei formas de pagamento adequadas ao tamanho da empresa, ou até mesmo a troca de serviços – o bom e velho escambo – que está na origem do sistema econômico de trocas comerciais, antes mesmo do surgimento da moeda.

enfim, não existe outra saída: precisamos nos organizar, nos associar, reforçar muito as associações existentes – e o fórum brasil design, que reuniu já na sua criação praticamente todas as entidades associativas da área de design no brasil inteiro – e apoiar sim, a regulamentação. ela certamente trará benefícios para todos, e principalmente para o usuário de design, que terá a quem recorrer para se instruir sobre como contratar corretamente um profissional de design que possa atender às suas expectativas.


(aqui está o post no designbr que originou este texto; não deixe de ver também este texto do professor freddy van camp sobre o assunto e esta apresentação preparada para a adegraf pelo professor felipe lopes, da unb)

ps: acrescento o link para o texto do mauro pinheiro, um dos melhores que já li sobre o assunto, e bom demais para estar apenas entre os comentários...