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transcrição da minha participação no debate promovido pelo british council em são paulo, novembro de 2013, organizado pela economista lidia goldenstein. a íntegra das discussões foi lançada em novembro de 2014 sob a forma de uma coleção com três volumes - ver link abaixo do artigo]
questionamentos sobre design e
inovação não são assuntos novos no brasil. há quase 140 anos, o estadista,
advogado e multifuncional rui barbosa dizia, na inauguração do liceu de artes e
ofícios, no rio, que o desenho – ele não usava o termo design – era um ofício
que devia ser incorporado pela indústria brasileira para que o país deixasse de
ser exclusivamente um exportador de matéria-prima. e mais: se conseguíssemos
unir a habilidade para o desenho, bem demonstrada naquela instituição de ensino
na época, com as riquezas naturais do brasil, seríamos altamente competitivos.
nós nos esquecemos disso por cento e
tantos anos e voltamos ao assunto no início dos anos 70, com o primeiro plano
nacional de desenvolvimento científico e tecnológico. na época, a unido [ou
onudi – organização das nações unidas para o desenvolvimento industrial, em
português] havia publicado alguns documentos sobre a importância de que países
periféricos, ou em desenvolvimento, tivessem políticas nacionais de design, que
usassem o design como uma ferramenta de desenvolvimento econômico e social. nos
anos 70, gui bonsiepe, designer alemão que se radicou na américa latina e hoje
está no brasil, dizia que havia um erro estratégico sendo cometido em termos de
políticas de design: nós, designers, estávamos preocupados em falar para os
empresários, para a sociedade e para o governo quando deveríamos falar para o
governo, para a sociedade e para os empresários; estávamos invertendo
completamente a ordem. o governo não tinha noção do que falávamos; nós,
designers, não sabemos falar com o governo, precisamos aprender essa outra
linguagem. não sabemos falar com os empresários também, outra questão mais
séria ainda.
dando outro salto, nos anos 2000
começa-se a falar em inovação, em como a sociedade pós-industrial em que
vivemos começa a carecer de outras maneiras de competição além de preços e
tecnologia. em 2008, o reino unido lançou seu planejamento de inovação,
inovation nation, citado no ensaio da
ailbhe [mcnabola]. nas 52 páginas do documento, design como ferramenta de
inovação, como atividade, é mencionado 60 vezes. em 2010, a união europeia
publicou seu próprio documento a respeito, chamado
inovation union, com 43 páginas, que menciona 14 vezes o design
como a ferramenta fundamental de inovação, que não deveria ser desprezada. um
ano depois, o brasil edita a estratégia nacional de tecnologia e inovação para
2012 e 2015. temos a capacidade de sermos prolixos sempre, então o nosso
documento tem 220 páginas, mas não fala em design uma única vez.
hoje percebemos que há uma abertura
para discutir design com o governo em várias instâncias e com órgãos de fomento
também. o bndes [banco nacional de desenvolvimento econômico e social] lançou não só o
prodesign, mas o
procult, com r$ 1,5 bilhão de reais, que também atinge o designer. só nesses
dois programas já são r$ 2 bilhões, r$ 500 milhões para financiar design e uma
fatia de r$ 1,5 bilhão que também pode ser usada para isso. o governo do estado
do rio lançou, recentemente, um programa próprio de financiamento de r$ 80
milhões. na semana passada, tive uma reunião no rio com a presidência da finep
[agência brasileira da inovação], discutindo como ajudá-los a entender melhor o
design como ferramenta de inovação. nesses lugares, temos encontrado um
panorama muito curioso: admite-se que o design é parte do processo de inovação
que está sendo financiado, mas o julgamento é absolutamente subjetivo, não se
sabe de que design se está falando, não se sabe por que o design é uma
ferramenta de inovação.
durante a brasil design week 2013 em
são paulo, nós da abedesign [associação brasileira de empresas de design] debatemos
sobre o lançamento do programa do bndes. nossa preocupação é que parecia um casamento
para o qual se esqueceram de avisar a noiva: o programa lançado foi uma
surpresa para nós, designers. uma boa surpresa, mas, ao mesmo tempo,
preocupante, porque é um programa que estabelece um corte inicial muito elevado
– r$ 3 milhões, se eu não me engano – para entrada de projetos de design. para
o bndes, já significa abaixar bastante o patamar habitual, que acho que é de r$
10 milhões financiáveis. ainda assim, para projetos de design de uma maneira
geral, é um patamar bastante elevado.
estamos chegando lá, mas precisamos
encontrar mecanismos para capilarizar um pouco mais esses recursos. tenho até
um certo receio de falar de capilaridade de recursos, porque temos uma
tendência no brasil a sempre capilarizar, atingir todas as instituições, todos
os locais, e isso, num país de proporções continentais, é um problema sério.
acabamos não nos concentrando em nada, em nenhum programa de excelência, e
criando uma enormidade de ações das quais um percentual mínimo efetivamente
vinga. há quase dez anos, quando estava na direção da esdi [escola superior de
desenho industrial], montamos um seminário com o bndes para discutir o que
acontecia com as políticas de design no país: fazia-se alguma coisa, mas não ia
adiante. a causa apontada foi a excessiva capilaridade de recursos.
no brasil, às vezes há preocupação muito
grande em distribuir recursos da forma mais democrática possível e cobrir toda
essa enorme extensão territorial, mas não se consegue fazer isso. fiz meu
doutorado em um programa do reino unido, cuja decisão estratégica de política
de design nacional faz o oposto disso: decidiu-se concentrar todos os esforços
em uma instituição para que essa se tornasse uma instituição de excelência.
alcançando sucesso, esse exemplo se replicará e será seguido por outras
instituições.
em 2008, organizamos um seminário
internacional sobre políticas de design no rio de janeiro e convidamos
representantes da espanha, da coreia do sul e do reino unido. eles trouxeram um
panorama bastante diverso do que acontecia no brasil. estes países tinham
centros, conselhos de design para propor, desenvolver e gerir programas de
design, com grandes equipes, números impressionantes, enquanto no brasil nós
tínhamos apenas uma pessoa no ministério do desenvolvimento tomando conta de um
programa de design junto com programas de outras áreas. era impossível essa
única pessoa gerir sozinha qualquer um daqueles programas, quanto mais diversos
programas. eram programas que existiam só no papel.
o planejamento original do programa
brasileiro de design é muito bem-feito, mas
não dá para querer reinventar a roda e gerir políticas públicas sem um
órgão de gestão de políticas públicas. há poucas semanas, em um debate na
editora abril, disseram: “se vocês vão esperar que o governo faça alguma coisa,
esqueçam; o segmento de design não vai crescer nunca”. eu contra-argumentei:
“design é componente fundamental na promoção da inovação – e estamos de acordo
com isso. se pretendemos nos tornar mais competitivos através da inovação e sabemos
que para isso precisamos do design, basta olhar para os países mais
competitivos no mundo hoje e ver como eles gerem as suas políticas de design;
não adianta imaginar que vamos fazer de um jeito completamente diferente”.
eu vejo com muita preocupação como a
economia criativa vem sendo tratada dentro da área da cultura no brasil.
o produto do design pode se situar no
ambiente da cultura, mas a produção do design se estabelece no âmbito da
economia. portanto, o foco maior da discussão de políticas de design não
pode ser deslocado para o produto do design, mas sim tratar das relações que
existem entre design e inovação, desenvolvimento, políticas de ciência e
tecnologia. se desconsiderarmos este contexto, vamos nos afastar do verdadeiro
papel que o design representa, ou pode representar, para a economia. aliás,
esse é o sentido original do que richard florida escreveu há tempos, a visão
macroeconômica sobre as indústrias criativas e o papel delas como fator de
competitividade. isso muito me preocupa.
não
podemos considerar o design apenas em relação ao seu produto final, pois isso
alimentaria a visão do design como uma casca que aparece ao final da produção,
e não como processo integral, front end
da inovação.
em um artigo de 2009, o deputado
antonio palocci [ex-ministro da fazenda] disse que o design fez mais pela
economia brasileira do que qualquer medida protecionista. essa percepção dele
tinha origem e se ampliava a partir do segmento da moda. existe, entre os
economistas, uma vaga percepção sobre a importância do design, mas esse desvio
de rota que se está fazendo é muito preocupante.
job rodrigues [bndes] questionou como
ir além dos prêmios e da promoção no design, afirmando que uma política de
design tem de ir além disso. isso vem sendo discutido há pelo menos 70 anos,
que é a idade do design council. os historiadores remetem a história das
políticas de design até o século 19, pelo menos; antes ainda, como uma
pré-história, as políticas de design teriam surgido associadas às políticas
mercantilistas e depois às feiras universais etc. uma das grandes críticas dos
teóricos e historiadores do design ao próprio design council é que, muitas
vezes, ele tomou o caminho da evangelização pelo design, como a ailbhe
mencionou, por ser mais fácil fazer isso do que intervir no mercado. a
intervenção no mercado é muito mais difícil de ser feita; falar dos aspectos
positivos do design é muito mais fácil. aqui cabe uma grande autocrítica:
nós, designers, temos a
tendência de só falar, fazer esse papel de evangelistas de nós (e para nós) mesmos.
nisso somos muito semelhantes, possivelmente, aos médicos que, quando lidam com
a vida humana, têm a tendência de se verem como super-homens. designers têm a
tendência de ser super-homens - afinal, designer é a profissão de deus - isso é muito perigoso.
quando falam que as políticas de
design não estão inseridas em políticas tradicionais industriais e de inovação,
eu discordo. usando o exemplo do design council: ele foi criado em 1944,
durante a segunda guerra, para contribuir para que a indústria britânica
crescesse depois que terminasse a guerra. um dos seus objetivos era fornecer
mobiliário, acessórios de casa etc. para os bombardeados da guerra e para a
grande quantidade de novos casamentos esperados com o retorno dos jovens que
tinham ido para a guerra. eles iam formar novas famílias e precisavam mobiliar
e montar casas. isso poderia alimentar a indústria britânica, que precisava
voltar a crescer. é difícil haver maior inserção do design em uma política
industrial do que isso!
outra coisa da qual eu também
discordo é que as políticas de design surgem a reboque da indústria. as
políticas de design têm sido usadas muitas vezes para intervir na indústria. a
indústria coreana, por exemplo, fez uma opção de investir num segmento bastante
incomum, o setor da indústria automobilística. o carro coreano há 10, 20 anos,
para nós, no brasil, era a towner, da kia, aquele carro horroroso. hoje, os automóveis
coreanos competem com a bmw, num patamar completamente diferente. foi uma opção
de intervenção num segmento da indústria, sofisticado, totalmente diferente de
uma ação em indústria de pequeno porte. foi uma ousadia em termos de política
pública o que a coreia fez naquele momento.
sobre política intervencionista no
mercado para corrigir falhas sistêmicas, esses documentos da unido dos anos 70
que mencionei previamente sugeriam exatamente esse caminho, que as políticas de
design deveriam surgir para apoiar políticas industriais e de ciência e
tecnologia, e mostravam como fazer isso. tinham fórmulas prontas que poderiam
ser adotadas. no brasil, algumas foram seguidas. o departamento de design do
int [instituto nacional de tecnologia] no rio foi criado nessa época, nos anos
70, dentro de uma política industrial. o cetec [fundação centro tecnológico de
minas gerais], de belo horizonte, também foi criado nessa época para dar apoio
à indústria moveleira local como parte de uma política industrial e
tecnológica. existem exemplos práticos no brasil e há outros exemplos de
intervenção de políticas de design hoje em dia na coreia, finlândia, dinamarca,
suécia e, mais perigosamente, falando de nossa competição direta, em cingapura,
na índia e na china.
[
a série completa com as três publicações do british council está disponível online, na página "diálogos de economia criativa entre o brasil e o reino unido"]