quinta-feira, 19 de maio de 2016

sísifo e as políticas de design no brasil



na mitologia grega, sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar eternamente uma pesada pedra até o alto de uma montanha, apenas para vê-la rolar encosta abaixo e ter que reiniciar o seu trabalho. o escritor e filósofo francês albert camus explorou este mito para discorrer sobre o absurdo da vida - e o quanto nos dedicamos a construir um futuro que insiste em rolar montanha abaixo.

na manhã do dia 11 de maio foi aprovado em brasília, pelo pleno do conselho nacional de políticas culturais, o plano setorial de design. o plano é um documento brilhantemente construído por um grupo de designers de todo o país, através de consultas locais e com muito esforço e competência. através de quatro eixos, propõe ações para promover a divulgação e o fortalecimento da atividade e especialmente para a sua contribuição ao crescimento econômico e social no brasil. uma pesada pedra levada montanha acima.

dois dias depois, soube-se pela imprensa da extinção do ministério da cultura - ou sua incorporação, ainda sem detalhes, ao ministério da educação. e rola a pedra montanha abaixo. aliás, rola montanha abaixo em companhia de outra, maior ainda, carregada 30 anos montanha acima - a da cultura nacional.

no dia 1º de dezembro de 2015, o congresso nacional validou o veto presidencial à regulamentação profissional da atividade dos designers no país - uma imensa pedra, carregada montanha acima quase quarenta anos por gerações de designers, que rolou montanha abaixo. 

isso tudo desconsiderando que o design é visto hoje como ferramenta indispensável de inovação ao redor do mundo. aliás, ferramenta esta que é absolutamente ignorada, mais uma vez, na estratégia nacional de ct&i 2016-2019, documento que irá nortear as ações de inovação, lançado no dia 12 de maio. design? para que serve isso mesmo? outra grande pedra rolando montanha abaixo.

camus tinha razão: a vida é feita de absurdos - e de pedras enormes rolando montanha abaixo, aguardando para serem novamente empurradas até o topo por aqueles que (ainda) se dispõe a isso.


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[ imagem: gravura de friedrich john baseada em quadro de matthäus loder, século 19 ]



[update]
o ministério da cultura voltou a existir alguns dias depois, embora as políticas setoriais não tenham qualquer previsão de implementação.

sábado, 23 de abril de 2016

design: ferramenta política do século 21



o economista e teórico do design john heskett escreveu que diversas atividades "se apropriam da palavra 'design' para criar uma aura de competência, como em: 'hair design', 'nail design', ‘design floral', e até mesmo 'design funeral'. por que não 'hair engineering', ou 'arquitetura funeral'? parte da razão pela qual o design pode ser usado dessa maneira arbitrária é que ele nunca foi coeso em uma profissão unificada, como o direito, medicina ou arquitetura, onde uma licença ou qualificação similar é necessária para a prática, com os padrões estabelecidos e protegidos por instituições de auto-regulação, e uso do descritor profissional limitado para aqueles que ganharam ingresso através de procedimentos regulamentados. em vez disso, a prática do design se partiu em subdivisões cada vez maiores sem qualquer conceito abrangente ou organização, e por isso pode ser apropriada por qualquer um.” (do livro toothpicks and logos: design in everyday life, oxford university press, 2002). com esse discurso, heskett defendia a importância da regulamentação profissional dos designers (ou a certificação, dependendo do sistema legal e das práticas profissionais de cada país).

no atual cenário político e econômico, em que caberia investir em design, inovação e aumento da competitividade industrial, o que se tem visto no brasil na área do design é uma constante retração do apoio governamental. o papel estratégico desempenhado pelo design hoje na europa e na ásia – incentivado através de programas da comunidade europeia e replicados pelos seus países-membros – tem sido frequentemente desconsiderado nas esferas públicas brasileiras. até mesmo programas que alcançaram relativo sucesso foram desmobilizados, e sente-se a falta de um instrumento eficaz de gestão das políticas nacionais de design (uma espécie de ‘agência nacional do design’), como existe em diversos países aonde o design é considerado uma ferramenta estratégica imprescindível – reino unido, finlândia, coréia do sul, taiwan, para citar apenas alguns.

em 2015 tivemos mais uma edição da bienal brasileira de design, que desta vez aconteceu em florianópolis, santa catarina, atraindo as atenções do mundo para o design brasileiro. pudemos observar a mobilização e o entusiasmo com que a federação das indústrias local abraçou o evento para torná-lo viável, junto com outros importantes parceiros do governo estadual e federal – e mesmo assim, quase um ano depois, a bienal está com dificuldades de fechar as suas contas e pagar fornecedores. não posso me esquecer da experiência vivida há vinte anos num congresso mundial do icsid (conselho internacional de sociedades de design industrial) no canadá, quando a coréia do sul disputava o privilégio de sediar congresso semelhante em seul. para defender a candidatura, além do apoio (e investimento) massivo da indústria coreana, a delegação trazia dois ministros de estado. havia ali uma clara intenção política de fazer uso do design como uma ferramenta para alavancar a indústria coreana a novos patamares de inovação e competitividade, cujos resultados todos conhecemos hoje. é muito importante enfatizar este episódio: não eram funcionários graduados que haviam se deslocado de seu país para representar o governo – mas sim dois representantes do primeiro escalão do governo coreano, numa clara afirmação da importância que o presidente e seus ministros atribuíam ao design. este endosso oficial ao evento internacional fazia parte de um plano maior que tinha como objetivo alavancar economicamente o país – objetivo este plenamente alcançado. para falar de um evento mais recente, aconteceu em taipei em 2011 o congresso da international design alliance (ida), reunindo 5.000 integrantes dos conselhos internacionais de design industrial (icsid), gráfico (icograda) e de interiores (ifi). a palestra de abertura deste congresso foi feita pelo vice-presidente da república da china (taiwan). precisamos atingir no brasil este grau de entendimento e comprometimento por parte de nossos governantes. já presenciei e li declarações vindas de políticos do primeiro escalão executivo – em instâncias federais, estaduais e municipais – que comprovam existir alguma sensibilidade ao assunto, mas ainda precisamos de maior comprometimento, de mais espaço nas agendas. cabe aos designers, empresários e políticos engajados e comprometidos com esta agenda a responsabilidade de levar às diversas instâncias de governo o conhecimento sobre o papel estratégico do design, através de ações focadas nestes segmentos. um maior número de empresários também precisa ser atingido e sensibilizado. o brasil tem programas regionais que merecem destaque mundial – como as atividades do centro brasil design (antigo centro de design do paraná, situado em curitiba), que poderiam ser replicadas nacionalmente.

nesse contexto é que se encaminhou o projeto de lei de regulamentação profissional dos designers, apresentado em 2011 na câmara dos deputados pelo deputado penna. fruto de uma intensa e inédita colaboração de praticamente todas as entidades profissionais brasileiras, além de centros de design e outras instituições, o projeto culminou uma luta de mais de 40 anos – e diversas tentativas de projetos de lei anteriores – e alcançou aprovação em todas as instâncias do congresso nacional. no entanto, para enorme frustração de uma categoria profissional que se preparava para colaborar ativamente com o governo na busca de soluções para o crescimento do país, o projeto sofreu veto total da presidência da república, levando por água abaixo a luta iniciada nos anos setenta.

entendemos que o veto presidencial à regulamentação profissional dos designers tem graves implicações, ao demonstrar que:

• a presidência está efetivamente desconectada do congresso e reage negativamente a um projeto que foi aprovado com expressividade nas duas casas; além disso está igualmente desconectada da sociedade civil, que se expressou através de todas as instituições profissionais (e diversas outras) ligadas ao design no país, e que sequer foram recebidas, consultadas ou consideradas sobre assunto desta importância;

• este governo (apesar de algumas ações promovidas através do mdic) demonstra não considerar o design como um importante fator de inovação e desenvolvimento, ao contrário do grande número de países que vêm fazendo uso desta ferramenta do século 21 (o design sequer é citado uma única vez no documento estratégia nacional de ct&i 2012-2015, que estabeleceu princípios para assentar as políticas nacionais de inovação);

• talvez um dos pontos mais sérios, pelo descrédito que lança sobre o ensino do design, regulamentado há décadas no país, e que tem hoje em dia 1511 cursos (entre bacharelados, sequenciais, licenciaturas e tecnológicos), 23 mestrados, 10 doutorados e mais de 50 anos de tradição. o veto significa que estes cursos de design não merecem, deste governo, crédito pela relevante formação que oferecem, e traz enorme desestímulo aos estudantes – afinal, para que investir tanto tempo numa formação profissional que não será depois reconhecida?

com o veto, o governo federal deixa claro que entende que qualquer um pode ser designer, bastando para isso demonstrar ‘habilidade’ e não formação técnica. eis a confusão: o fato do design ser transdisciplinar, valendo-se de estratégias como co-criação e design thinking, que envolvem usuário e outros profissionais, não significa que tudo é design nem que todo mundo é (ou pode ser) designer. significa que o design pode (e deve) agregar indivíduos com diferentes especialidades num processo projetual - e este processo é coordenado geralmente (mas não exclusivamente) por um designer, com formação específica para isso. nisso este profissional se distingue dos outros – e para isso estudou vários anos.

curiosamente, na mesma semana que foi vetada a regulamentação profissional dos designers, foi aprovada a regulamentação dos artesãos. afinal, que recado é esse que está sendo passado para a sociedade – e mais especificamente para a nossa indústria? precisamos responder aos desafios complexos do século 21 com ferramentas do século 21 – e o design é inegável e reconhecidamente uma das principais ferramentas de que dispomos para isso.


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este artigo foi originalmente publicado na revista pensar verde, da fundação verde herbert daniel, n.16, ano 4, março/abril/maio de 2016

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

design & desenvolvimento - the radical designist




a revista acadêmica de design portuguesa the radical designist teve seu último número, de dezembro de 2015, dedicado às políticas de design. neste contexto publicou uma resenha que preparei para o livro design & desenvolvimento: 40 anos depois, que eu e meu colega josé mauro nunes organizamos, e que foi lançado pela editora blucher no final de outubro de 2015

compartilho abaixo com vocês a resenha publicada, que pode ser encontrada no seu original neste link.

porquê falar de políticas de design?
o discurso do design como ferramenta para o desenvolvimento (seja este econômico, social, ou um ideal de convergência de ambos) se estabelece no contexto do debate sobre as políticas nacionais de design. este debate, embora esteja se ampliando nesta última década especialmente a partir da europa e ásia, ainda é bastante restrito mundialmente no ambiente acadêmico, com raras publicações, pesquisas e estudos sobre o tema.
por outro lado, há décadas fala-se da necessidade do design se aproximar das instâncias públicas e dos órgão governamentais, integrando-se ao rol de ferramentas que estes dispõem para enfrentar os problemas cada vez mais complexos de gestão e de políticas públicas. autores como gui bonsiepe, john heskett, victor margolin, alpay er, brigitte borja de mozota, entre outros, chamam atenção para o tema, que na academia surgiu inicialmente na área de história do design a partir dos anos noventa, e em seguida também na área de gestão do design. nos últimos anos, o crescente interesse sobre o tema parte principalmente do entendimento do design no contexto da economia criativa – segmento da economia que vem crescendo a taxas superiores a todos os demais, frequentemente até mesmo que a área financeira. a convergência de interesses inclui organismos internacionais como a conferência das nações unidas para o comércio e desenvolvimento (unctad), o fórum econômico mundial e a comissão europeia, com o apoio de instituições profissionais como o bureau europeu de associações de design (beda) e o conselho internacional de sociedades de design industrial (icsid). conferências, novos estudos, documentos encomendados por órgãos de governo tem sido gerados em constante progressão a cada ano que passa. fala-se não mais apenas em políticas de design, mas também no design para as políticas – reconhecendo a importância de ferramentas do design para a construção de entendimento e de maior clareza na formulação de políticas públicas. para citar apenas um documento que ganhou destaque nos últimos anos, design for growth and prosperity relatório do conselho europeu de lideranças de design editado pela comissão europeia em 2012. nele diversas recomendações aos países-membros agrupam-se de forma interconectada os sistemas de inovação, educacionais, de pesquisa, empresas e setor público, com diversas diretrizes que visam promover o desenvolvimento da economia através do design.
um panorama fértil e que clama à mobilização do design – e principalmente aos designers – para ir de encontro às classes políticas e em especial à sociedade como um todo, na busca de construir um futuro em que o foco esteja no cidadão, e não apenas na economia e nas finanças.
a origem há cinquenta anos: icsid, onu, design e desenvolvimento
desde os anos sessenta estava em pauta no conselho internacional de sociedades de design industrial (icsid) a criação de um grupo de trabalho sobre países em desenvolvimento – conhecido como o icsid’s working group 4 (ou grupo de trabalho 4, aqui abreviado para gt4). em maio de 1970, o professor nathan shapira, então diretor do departamento de design da universidade de nairobi, no quenia, apresentou um “esboço de metas” para a criação do gt41, aonde ele elencava alguns fatores que justificavam a instalação desta comissão, dentre os quais:
evidências recentes de que o design industrial torna-se um fator de aceleração do crescimento numa economia em desenvolvimento, lado a lado com a gestão e a produtividade. (…) a necessidade de uma orientação competente de design (por parte) de um crescente número de países em desenvolvimento, e a falta de agências adequadas a preencher esta lacuna.”
sua experiência no continente africano, iniciada nos anos sessenta, o habilitava para coordenar o recém-criado grupo de trabalho. sob sua coordenação, o gt4 promoveu durante o sétimo congresso internacional do icsid (realizado em ibiza, 1971), dois encontros para debater estratégias de promoção do design nos países em desenvolvimento2. no primeiro destes encontros, além da participação de representantes da tailândia, india, filipinas e brasil, foi registrada também a presença de um representante da organização das nações unidas para o desenvolvimento industrial (onudi) – o engenheiro n.k. grigoriev, diretor da divisão de tecnologia industrial daquela organização. aparentemente este é o primeiro registro da interação entre o icsid e a onudi (ou unido, na sua sigla em inglês).
esta aproximação entre as duas instituições levou à uma parceria, e teve como resultados iniciais dois documentos que podem ser considerados seminais na história das políticas de design para países periféricos. o primeiro destes é um relatório produzido por gui bonsiepe em 1973, e que se intitula desenvolvimento pelo design3. o segundo documento, intitulado diretrizes básicas para políticas de design industrial em países em desenvolvimento4, foi produzido pelo secretariado da onudi em 1975, como consequência do trabalho da comissão conjunta icsid e onudi, e reflete de forma resumida o relatório apresentado por bonsiepe.
ambos os documentos são muito pouco conhecidos – até mesmo por sua classificação pela onudi como ‘restritos’5. apesar da sua abrangência6, sintetizam a ideia (expressa nos títulos dos documentos) sem se propor a prescrever uma fórmula única para a implementação de políticas de design. são por isso mesmo referências importantes, e temos a certeza que a sua divulgação poderia contribuir ainda hoje para a construção ou reestruturação de programas de design ao redor do mundo. estes documentos, cedidos especialmente pela onudi para reedição, servem como base para o livro design e desenvolvimento – 40 anos depois, organizado por gabriel patrocínio e josé mauro nunes, professores e pesquisadores da universidade do estado do rio de janeiro (lançamento em outubro de 2015 pela editora blücher, de são paulo, brasil).
o livro celebra os quarenta anos (1975-2015) passados da publicação do documento-síntese da onudi, ao mesmo tempo em que se procura trazer à tona como esta ideia – o design como uma ferramenta de desenvolvimento – tem sido abordada ao longo destas quatro décadas nos diversos países de origem dos autores e co-autores (conforme descrito a seguir). visões sobre políticas públicas, desenvolvimento industrial, estratégias, trajetórias convergentes e divergentes, design como ferramenta de consumo, de competitividade e de desenvolvimento social – um amplo panorama que não se propõe a ser completo, mas apenas dar início a um debate sobre o tema (ou reacende-lo).
uma breve descrição do conteúdo do livro:
diferentes autores foram convidados a trazer suas contribuições a partir do brasil, índia, china, turquia, e incluindo visões gerais do continente africano e da américa latina, além de um panorama sobre a europa hoje. somam-se a estes a perspectiva histórica trazida por victor margolin e os comentários de gui bonsiepe, protagonista original dos fatos que deram origem ao próprio livro.
abrindo o livro, victor margolin mapeia o contexto do design para o desenvolvimento no primeiro capítulo, seguido pelo texto clássico de alpay er (ozyegin university, istambul) sobre os padrões de desenvolvimento do design industrial nos países periféricos. a relação dialética entre o design para necessidade e o design para o desenvolvimento é o texto que se segue, de autoria de gabriel patrocinio, discutindo especialmente as atuações de victor papanek e gui bonsiepe neste panorama. gui bonsiepe responde em seguida às questões colocadas pelos organizadores do livro, em uma entrevista exclusiva aonde fala sobre a sua visão sobre aqueles documentos após quatro décadas. marcos braga e juan buitrago (universidade de são paulo, usp) trazem a discussão para o contexto da américa latina, seguidos pelo texto dos economistas robson gonçalves e roberto aragão (fundação getulio vargas, fgv, são paulo) abordando o novo desenvolvimentismo e o pensamento econômico no âmbito da cepal (comissão econômica para a américa latina, órgão ligado à onu). ravi poovaiah e ajanta sen (instituto de design industrial, iit bombaim), falam sobre a perspectiva da índia, país que recebeu a conferência de design de ahmedabad em 1979 que novamente reuniu, sob o mesmo tema do design para o desenvolvimento, o icsid e a onudi. mugendi m’rithaa, presidente do icsid, fala sobre o papel do design no continente africano em entrevista concedida aos organizadores, seguido pelos professores cai jun (universidade tsinghua, pequim) e sylvia xihui liu (politécnico de hong kong) que abordam o impressionante desenvolvimento do design na china. gisele raulik-murphy, darragh murphy e anna whicher trazem uma perspectiva europeia sobre o uso do design como ferramenta de desenvolvimento. o professor josé mauro nunes (uerj e fgv), especialista em consumo e comportamento, e a pesquisadora izabelle vieira trazem uma visão contemporânea dos impasses enfrentados pelo design frente às mudanças de mercado – em especial o consumo colaborativo. 
o livro se encerra com os dois documentos que provocaram a sua existência3 e 4, trazidos pela primeira vez ao conhecimento público após quatro décadas, e espera-se com o potencial de provocar mais do que apenas debates acadêmicos, mas principalmente reflexão e maior interação entre designers e agentes públicos.

notas:

[1] Shapira, N. (1971 A). An Outline of Goals for the Design for Developing Countries Commission of The International Council of Industrial Design Societies (sic). University of Brighton Design Archives. Ref: GB-1837-DES-ICD-6-4-5-3.
[2] Shapira, N. (1971 B). Design in Developing Countries – meetings organized by ICSID’s Working Group No. 4. University of Brighton Design Archives. Ref: GB-1837-DES-ICD-6-4-2-1
[3] BONSIEPE, G. (1973) Development through Design – A working paper prepared for UNIDO at the request of ICSID. Viena: UNIDO.
[4] UNIDO SECRETARIAT (1975) Basic Guidelines for Policy of Industrial Design in Developing Countries. Viena: UNIDO.
[5] Não foi possível levantar qualquer informação que permitisse identificar a origem da restrição à divulgação dos documentos. Apenas quanto ao primeiro, de autoria de Bonsiepe (1973), é possível especular que por se tratar de um documento interno de trabalho houve restrição à sua divulgação.
[6] O documento final (1975) está dividido em três grupos, definindo a participação do design em políticas de desenvolvimento industrial; os objetivos, requisitos e campos de atividade que devem ser considerados em programas nacionais de design; e ainda especificando possíveis componentes de programas nacionais de design de acordo com necessidades particulares.

design & desenvolvimento: 40 anos depois [livro]




organizado por mim e pelo meu colega, professor josé mauro nunes (ifht/uerj e fgv), o livro design & desenvolvimento: 40 anos depois, editado pela blucher, foi lançado no final de outubro de 2015. seu conteúdo aborda o design como ferramenta para o desenvolvimento econômico, industrial, social e ambiental, sob diferentes perspectivas - com autores do brasil, colômbia, estados unidos, inglaterra, turquia, china, índia e áfrica do sul - e num contexto histórico dos últimos 40 anos. este recorte temporal parte de 1975, quando a organização das nações unidas para o desenvolvimento industrial, unido, editou um documento contendo recomendações sobre políticas nacionais de design para países emergentes. este documento baseava-se num relatório organizado pelo professor gui bonsiepe, a pedido do icsid, e que foi concluído e entregue à unido em 1973. ambos os documentos foram classificados como 'reservados' e permaneceram praticamente inéditos desde então, tendo sido liberados pela unido especialmente para a edição deste livro.

entre os diversos participantes do livro, encontram-se o professor victor margolin, historiador do design com diversas obras importantes publicadas; o professor gui bonsiepe, autor do relatório citado acima e que deu origem a boa parte das discussões do livro; o professor mugendi m'rithaa, presidente o icsid, e muitos outros autores com pontos-de-vista interessantes e inovadores.



diversos lançamentos já aconteceram ou estão programados para acontecer pelo brasil afora. acompanhe a agenda de lançamentos (quase sempre com debates com os organizadores) através da página do livro no facebook.

durante o lançamento que aconteceu na semana d, em novembro de 2015 em curitiba, a equipe da revista design magazine brasil gravou comigo uma entrevista sobre o livro. assista abaixo o video da entrevista:






ficou curioso? no site da editora blucher pode ser baixada uma amostra do livro, aonde constam o conteúdo,  as duas apresentações (feitas respectivamente pelo diretor da unido no brasil, sr. gustavo aishemberg, e pela sra. edna dos santos-duisenberg, responsável pelo relatório da unctad sobre economia criativa) a introdução e o primeiro capítulo (escrito pelo professor victor margolin).

para aguçar ainda mais a sua curiosidade, veja abaixo a lista dos títulos e autores de cada capítulo:
  • apresentação – a unido e o design industrial – gustavo aishemberg 
  • apresentação – o papel do design na era do conhecimento – edna dos santos-duisenberg 
  • introdução – por que falar de políticas de design? – gabriel patrocínio 
  • design para o desenvolvimento: mapeamento do contexto – victor margolin 
  • padrões de desenvolvimento do design industrial no terceiro mundo: um modelo conceitual para países recém-industrializados – h.alpay er 
  • design e os países em desenvolvimento: a dialética entre o design para a necessidade e o design para o desenvolvimento – gabriel patrocínio 
  • 40 anos depois – entrevista com gui bonsiepe – gabriel patrocínio e josé mauro nunes 
  • da américa latina para a américa latina: o design como ferramenta para o desenvolvimento econômico e cultural – juan camilo buitrago e marcos da costa braga 
  • de prebisch ao novo desenvolvimentismo: teoria e prática das políticas industriais – robson gonçalves e roberto aragão 
  • por dentro da eterna “atemporalidade” da índia – o design traz mais perguntas que respostas? – ajanta sen e ravi poovaiah 
  • design na áfrica: participo, logo existo – entrevista com mugendi k. m’rithaa – gabriel patrocínio 
  • design para o desenvolvimento: uma perspectiva da china – sylvia liu e cai jun 
  • uma mudança de paradigma nas políticas: integrando o design à agenda europeia de inovação – gisele raulik-murphy, darragh murphy e anna whicher 
  • consumo e desenvolvimento: perspectivas, limites e impasses do consumo colaborativo na contemporaneidade – josé mauro nunes e izabelle fernanda siveira vieira 
  • anexo 1 – desenvolvimento pelo design – gui bonsiepe (1973) 
  • anexo 2 – diretrizes básicas para políticas de design industrial em países em desenvolvimento – secretaria da unido (1975) 


o livro pode ser encontrado à venda em diversas livrarias online, entre elas a amazon brasil, e até mesmo nas casas bahia e nos supermercados extra!

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

bienal de design - para quem?

modelagem 3d do catálogo da bienal por dougrodrigues.com.br

para o catálogo da bienal brasileira de design 2015 - florianópolis, escrevi um texto de apresentação, compartilhado logo abaixo. 
o catálogo, com projeto gráfico da eg design, pode ser visto integralmente em edição online.


bienal de design - para quem?

a bienal brasileira de design é hoje o maior evento de design efetivamente nacional voltado de maneira ampla para a produção dos diversos setores da nossa indústria, comércio e serviços, exibindo o alto grau de qualidade, inovação e competitividade do nosso design. consequentemente está imbuída de um significado extremamente relevante para a nossa indústria e para nossos profissionais de design – que desempenham hoje um papel que é cada vez mais estratégico e integrado aos estágios iniciais e decisórios na cadeia de desenvolvimento de produtos, de serviços e até mesmo de novos negócios e de políticas públicas. a bienal traz portanto um caráter intrinsicamente estratégico em si própria, pela sua magnitude, representatividade, e pelo registro que faz tanto para a história como para servir de benchmark para o mercado, além de plataforma de experimentação, discussão e lançamento de novas ideias e novos produtos.

ao ser atribuído à esta edição da bienal brasileira de design o tema “design para todos”, procurou-se enfatizar uma série de princípios sobre os quais se assenta o bom design. não se estava portanto falando de design de uma maneira mais ampla, mas sim fazendo um recorte bastante específico. fala-se daquele design que inclui, que amplia o alcance, que estabelece conexões, que integra, que proporciona oportunidades igualitárias, que considera todo o amplo espectro de usuários - “e não apenas personas”, nas palavras de dan formosa (um dos participantes do seminário internacional). neste universo deve-se considerar (e incluir) ainda o design com todos, aonde o usuário assume o papel de co-participante do processo de criação de novos produtos e serviços e da atribuição de valores à estes. isto não faz com que todos sejam designers - o mundo seria insuportável se este fosse o caso - mas distribui entre todos, de forma igualitária, democrática e cidadã a responsabilidade de construir o nosso futuro através dos objetos, produtos, serviços, que consumimos e utilizamos. faz com que todos sejam chamados a pensar sobre o uso racional de recursos, de energia, sobre a vida útil dos produtos, sobre o valor econômico da produção, sobre valores culturais, sobre convivência entre diferentes.

mas há outras dimensões que devem ser consideradas também dentro deste tema, e que perpassam a própria ideia de uma grande exposição representando o design nacional. como bem chamou atenção ralph wiegmann, outro dos convidados internacionais durante o seminário de abertura: design para todos, antes de mais nada, não é design para designers apenas. sabemos que um seminário internacional sobre design vai atrair principalmente um público de designers - profissionais, pesquisadores e estudantes da área - pois estes são os principais interessados em debater e fazer avançar a sua área de atuação. no entanto, é necessário que se deem passos cada vez mais efetivos para haver um melhor entendimento sobre o potencial que a disciplina do design traz para a indústria, para o comércio, para os serviços, e para o governo - e obviamente, até por extensão, à toda a sociedade. existe portanto a necessidade de estender o alcance para que mais empresários, mais governantes, mais legisladores, mais membros do poder executivo, mais estudantes de todos os níveis e de todas as áreas, mais donas de casa, mais funcionários públicos, mais operários, mais trabalhadores de todas as áreas, se interessem em saber o que é design - e que benefícios pode trazer para todos.

no atual cenário político e econômico, em que caberia investir em design, inovação e aumento da competitividade, o que se tem visto na área do design é uma redução constante do apoio governamental. o papel estratégico desempenhado pelo design hoje na europa, e incentivado através de programas originados nos organismos de gestão da ce e replicados pelos seus países-membros, tem sido frequentemente desconsiderado nas esferas públicas no brasil. até mesmo programas que alcançaram relativo sucesso foram recentemente desmobilizados ou desestruturados, e sente-se a falta de um instrumento eficaz de gestão das políticas nacionais de design, como de resto existe em diversos países aonde o design é considerado uma ferramenta estratégica imprescindível – reino unido, finlândia, coréia do sul, taiwan, para citar apenas alguns.

pudemos observar a mobilização e o entusiasmo com que a federação das indústrias de santa catarina abraçou o evento para torná-lo viável, junto com outros importantes parceiros do governo estadual e federal. no entanto não posso me esquecer da experiência vivida há quase vinte anos num congresso do icsid no canadá, quando a coréia do sul disputava o privilégio de sediar congresso semelhante em seul. para defender a candidatura, além do apoio (e investimento) massivo da indústria coreana, a delegação trazia dois ministros de estado. havia ali uma clara intenção política de fazer uso do design como uma ferramenta para alavancar a indústria coreana a novos patamares de inovação e competitividade, cujos resultados todos conhecemos hoje. é muito importante enfatizar este episódio: não eram funcionários graduados que haviam se deslocado de seu país para representar o governo – mas sim dois representantes do primeiro escalão do governo coreano, numa clara afirmação da importância que o presidente e seus ministros atribuíam ao design. este endosso oficial ao evento internacional fazia parte de um plano maior que tinha como objetivo alavancar economicamente o país – objetivo este plenamente alcançado. precisamos atingir no brasil este grau de entendimento e comprometimento por parte de nossos governantes. já presenciei e li declarações vindas de políticos do primeiro escalão executivo – em instâncias federais, estaduais e municipais – que comprovam existir sensibilidade ao assunto, mas ainda precisamos de maior comprometimento, de mais espaço nas agendas. cabe a nós designers – e aos empresários e políticos engajados e comprometidos com esta agenda – a responsabilidade de levar às diversas instâncias de governo o conhecimento sobre o papel estratégico do design, através de ações focadas nestes segmentos. um maior número de empresários também precisa ser atingido e sensibilizado. existem diversas possibilidades a explorar – muitas delas a partir do próprio projeto da bienal.

o brasil tem recebido uma tal quantidade de prêmios internacionais de design que isso fez com que o design council britânico apontasse em 2008 o nosso design como “serial award-winner” – um enorme elogio dentro de um relatório que apontava novas tendências internacionais que deveriam ser observadas. de lá para cá só fizemos aumentar o número de prêmios conquistados – a consequência lógica seria portanto explorar isso levando nossos produtos para serem expostos e consumidos em outros mercados. sinal de maturidade do nosso design e da nossa indústria, essa exposição a um mercado internacional extremamente competitivo produz reconhecidamente uma espiral ascendente de qualidade, posicionando nossos produtos favoravelmente no mercado internacional. a bienal brasileira de design traz nesse aspecto uma grande oportunidade: da mesma forma que temos recebido representações de países convidados (este ano, a holanda), deveria se aproveitar o enorme e custoso esforço de levantamento e fichamento da produção nacional e levar ao menos parte da mostra principal para um itinerário de divulgação no brasil e no exterior. sua itinerância no país serviria para potencializar e amplificar seus objetivos de levar à sociedade o entendimento do que é design e mostrar a significante produção do país. leva-la ao exterior, em feiras, mostras e museus, serviria para a prospecção de novos mercados, demonstrando a maturidade de nossas empresas e do nosso design.
pensando localmente, os quase 150 eventos paralelos que invadiram a cidade somados aos sete eventos principais da bienal brasileira de design certamente deixarão um legado importante para florianópolis: um melhor entendimento da população, de empresários e da esfera pública sobre o que é design e qual o potencial que ele tem de transformar realidades. uma compreensão de que o design vai muito além do seu aspecto estético. que design não é um componente apenas de produtos de luxo. que design não é custo, mas investimento – e que traz um retorno bastante significativo, como diversos estudos nacionais e internacionais comprovaram nos últimos anos.

esta bienal é portanto para todos – e não apenas de e para designers – mas tem ainda o importante papel de apontar caminhos para o governo, para os empresários, e para a sociedade. para que estes possam reconhecer e acreditar no poder de transformação e de promoção de crescimento econômico, industrial, e social que o design traz em sua capacidade agregadora e transdisciplinar. precisamos assegurar que se enxergue no design não apenas o seu aspecto estético, mas principalmente o seu potencial inovador e estratégico. um bem conduzido processo de design que racionaliza produção e uso de materiais, alcança mais fácil e efetivamente o mercado por reconhecer empaticamente o usuário, reduz riscos ao assimilar internamente a experimentação como método de projeto. bom design para o empresário e para o usuário, para o meio ambiente e para o desenvolvimento da sociedade. bom design para todos!


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

pensando o design thinking



foi lançado agora em outubro outro livro que teve minha participação. escrevi o prefácio para o livro design thinking & thinking design, de autoria dos meus ex-alunos ricardo abelheira e adriana melo. é uma excelente obra de referência sobre o tema, que eu recomendo para designers e não-designers.

compartilho aqui o texto que escrevi para o livro, com algumas reflexões sobre o design thinking - espero que apreciem:


a ideia do pensamento sintético do designer como sendo complementar ao pensamento analítico do cientista é algo que já vem sendo explorado desde os anos setenta. estruturada como metodologia, a maneira pelo qual o designer pensa e desenvolve projetos é objeto de estudos anteriores a isto, sendo disciplina básica para qualquer formação na área. não basta ao designer ser criativo, ou vaguear à busca de inspiração. seguir uma metodologia sempre foi a maneira dos designers driblarem as dificuldades de lidar com problemas diversos. e na medida que esses problemas se tornam mais complexos, há a necessidade de repensar também os processos para se lidar com eles.

neste contexto é que, a partir dos anos noventa, começa a ser formatado na universidade de stanford aquilo que recebeu um nome simples e objetivo: o pensamento do design(er) – design thinking. e david kelley, sócio e fundador da ideo, ajudou a transpor isso para o mundo dos negócios, aonde imediatamente alcançou enorme sucesso, numa era em que a economia se voltava para o conhecimento e para os ativos intangíveis. não sem causar desconfiança  entre os designers – afinal isso não era nada além do que eles já faziam há muito tempo!

em 2011, o tema já despertava um grande interesse no mundo dos negócios e entre designers, quando um grupo de jovens em taiwan decidiu produzir o filme design & thinking (dirigido por mu-ming tsai). deste filme, entre os muitos depoimentos sobre dt, destaco as falas de três entrevistados: tim brown, sara beckman e roger martin.

tim brown, ceo da empresa de design ideo, e com a autoridade de um dos maiores autores e especialistas no assunto, confirma que o dt tão-somente aplica métodos e abordagens estabelecidas do design a um conjunto mais amplo de problemas nos negócios e na sociedade. ou seja: sim designers, é isso mesmo que vocês diziam, mas com uma roupagem dirigida à área dos negócios, que começava a se interessar pelo assunto e precisava de alguma forma se aproximar mais.

construir uma ponte (ou não) vira quase uma parábola numa aula de sara beckman, quando ela demonstra que os problemas geralmente não são tão óbvios assim quanto parecem. por quê? para quê? quais as alternativas? numa rápida sequência de perguntas e respostas sem barreiras, percebe-se que há muitas maneiras de se alcançar o que se pretende, e nem sempre a mais óbvia ou a mais imediata é a melhor. no final a ponte a que ela se refere destinava-se, como se descobre depois de muitas perguntas, apenas a levar mensagens de um a outro lado, o que poderia ser feito de diversas outras maneiras mais simples, mais rápidas, mais baratas, e mais eficientes. re-enquadrar problemas, questionar continuamente, procurar entender a questão central - e não aquela que se oferece pronta e rapidamente - é o objetivo do dt.

destaca-se ainda no filme a intervenção de roger martin, diretor da rothman school of management da universidade de toronto, que adverte sobre um dos riscos existentes na atual popularização do dt. segundo ele, o espírito do dt não sobrevive à sua redução à uma fórmula fechada, um algoritmo de processamento de inovação. o valor do design se perde quando este é reduzido à uma fórmula.

por isso, - com a desculpa pela avalanche de termos em inglês - se você fizer um mashup de mindmap + moodboard + pinboard + post it wall, ao som de all together now dos beatles (também vale forró, ou pink floyd, bach, ou um podcast com tudo isso), parabéns! você entendeu o espírito da coisa. brasileiros criaram (ou reinventaram, dizem alguns) um lugar aonde você pode comer sushi com feijoada, misturando comidas, culturas e tendências e pagando por quilo! então a gente já tem os genes para entender como fazer essa mistura.

outra questão que se poderia levantar é sobre as consequências do empoderamento do usuário promovido no co-design ou no uso do dt como ferramenta de resolução de problemas - isto transformaria potencialmente qualquer pessoa num designer?

vamos pensar juntos então: conseguir desenhar e interpretar a planta de uma casa não faz de você um arquiteto; saber cozinhar não faz de você um chefe de cozinha; saber tratar de animais não faz de você um veterinário; da mesma forma que dominar razoavelmente bem uma ferramenta de criatividade como o dt não faz de ninguém um designer! ou como diz david kelley no filme citado acima: quando você procura um médico, você quer o melhor especialista possível, e não um curioso qualquer...

em 2015, ao participar pelo segundo ano consecutivo do corpo de jurados de um concurso internacional de design (na categoria de projetos de estudantes) eu notei, em relação ao ano anterior, um crescimento do número de projetos inscritos que não passariam nem mesmo de uma primeira filtragem num processo de desenvolvimento de um novo produto. gadgets inconsequentes, uso exagerado de tecnologia embarcada em produtos que nem de longe precisariam daquilo tudo. bem, mas afinal eram trabalhos de estudantes, certo? seria somente por esta razão? o nível era elementar, e se as escolas de design estão formando designers sem essa habilidade mínima de filtragem inicial, estamos perdidos, eu pensei. para minha surpresa, observei que a grande maioria desses projetos "sem filtro" haviam sido inscritos por estudantes de cursos de gestão, e não escolas de design! ou seja, eram um "efeito colateral" do ensino massivo de dt nestas escolas...

bem, pelo menos sabemos que teremos gestores mais criativos, pensando mais "fora da caixa" - mas será que eles estão efetivamente compreendendo o que é design? designers tem uma atividade profissional demarcada - embora com áreas de sombreamento com outras profissões, exatamente por seu caráter transdisciplinar - e exercem sua atividade em equipes com diversos outros profissionais que contribuem cada um na sua especialidade para o desenvolvimento de projetos cada vez mais complexos. e esta particularidade é algo que precisa ser bem compreendido – especialmente por gestores.

se observamos um diagrama que representa o fluxo de desenvolvimento de ideias no dt, podemos perceber que, considerando um ciclo completo de desenvolvimento de produto, existem ali enormes simplificações. isso porque não se pretende, através de sessões de dt, desenvolver integralmente um projeto de produto - mas apenas gerar ideias inovadoras. numa dinâmica de dt, designers podem agir como catalisadores e como “filtros” de ideias, selecionadas a partir de um fluxo livre e contínuo. mas ao se afunilar o processo para se chegar a um produto com bom design, aí devem contribuir conhecimentos técnicos de diversos especialistas: administradores, engenheiros, especialistas em mercado, psicólogos, ou quem mais estiver envolvido na cadeia de desenvolvimento daquele tipo de produto.

em resumo: use, leia, aprenda, inspire-se, crie – mas não transforme estes conhecimentos em fórmulas prontas. não existe fórmula para criatividade. existem maneiras de provoca-la, de estimula-la, de liberar as amarras e navegar sem um destino pré-estabelecido, apenas supondo que se vai chegar a algum lugar – e que este lugar pode ser muito mais interessante do que você esperava!

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

design, que design?

na minha tese de doutorado cito algumas referências que apontam alguns sérios problemas causados pela incorreta compreensão sobre o que seja o design como atividade profissional (*). frequentemente ao ser indagado sobre este assunto, tenho dito que se deve recorrer à definição internacionalmente aceita do icsid, o conselho internacional de sociedades de design industrial, recentemente renomeado wdo, organização mundial do design.

pois então - após um grande debate, eles acabam de publicar uma definição revista e atualizada, da qual eu fiz a seguinte tradução:

"o design industrial é um processo estratégico de solução de problemas aplicado a produtos, sistemas, serviços e experiências, resultando em inovação, sucesso comercial e melhor qualidade de vida. é uma profissão trans-disciplinar que conecta inovação, tecnologia, negócios, pesquisa e usuários, fazendo uso de criatividade e visualizações para resolver problemas e criar soluções, reenquadrando problemas como oportunidades, com o objetivo de fazer melhores produtos, sistemas, serviços, experiências ou negócios, proporcionando novos valores e vantagens competitivas. o design industrial considera os aspectos econômicos, sociais, ambientais e éticos dos seus resultados, visando a criação de um mundo melhor."

a nova definição pode ser encontrada no site do icsid, assim como um excelente histórico de definições anteriores.

por sua vez, o ico-d (conselho internacional de design - novo nome do icograda, o conselho internacional de associações de design gráfico), dispõe em seu site de uma definição da atividade profissional de design:

"design é uma disciplina dinâmica, em constante evolução. o designer treinado profissionalmente aplica a intenção na criação do ambiente visual, material, espacial e digital, cientes do empírico, empregando abordagens híbridas e interdisciplinares à teoria e pratica do design. eles compreendem o impacto cultural, ético, social, econômico e ecológico das suas realizações, e sua responsabilidade final sobre as pessoas e o planeta tanto nas esferas comercial e não-comercial. um designer respeita a ética da sua profissão."


(*) patrocinio,g. the impact of european design policies and their implication on the development of a framework to support future brazilian design policies (página 16). cranfield university (tese de doutorado): cranfield, reino unido. 2013.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

design no âmbito da economia e de políticas industriais


[transcrição da minha participação no debate promovido pelo british council em são paulo, novembro de 2013, organizado pela economista lidia goldenstein. a íntegra das discussões foi lançada em novembro de 2014 sob a forma de uma coleção com três volumes - ver link abaixo do artigo]




questionamentos sobre design e inovação não são assuntos novos no brasil. há quase 140 anos, o estadista, advogado e multifuncional rui barbosa dizia, na inauguração do liceu de artes e ofícios, no rio, que o desenho – ele não usava o termo design – era um ofício que devia ser incorporado pela indústria brasileira para que o país deixasse de ser exclusivamente um exportador de matéria-prima. e mais: se conseguíssemos unir a habilidade para o desenho, bem demonstrada naquela instituição de ensino na época, com as riquezas naturais do brasil, seríamos altamente competitivos.

nós nos esquecemos disso por cento e tantos anos e voltamos ao assunto no início dos anos 70, com o primeiro plano nacional de desenvolvimento científico e tecnológico. na época, a unido [ou onudi – organização das nações unidas para o desenvolvimento industrial, em português] havia publicado alguns documentos sobre a importância de que países periféricos, ou em desenvolvimento, tivessem políticas nacionais de design, que usassem o design como uma ferramenta de desenvolvimento econômico e social. nos anos 70, gui bonsiepe, designer alemão que se radicou na américa latina e hoje está no brasil, dizia que havia um erro estratégico sendo cometido em termos de políticas de design: nós, designers, estávamos preocupados em falar para os empresários, para a sociedade e para o governo quando deveríamos falar para o governo, para a sociedade e para os empresários; estávamos invertendo completamente a ordem. o governo não tinha noção do que falávamos; nós, designers, não sabemos falar com o governo, precisamos aprender essa outra linguagem. não sabemos falar com os empresários também, outra questão mais séria ainda.

dando outro salto, nos anos 2000 começa-se a falar em inovação, em como a sociedade pós-industrial em que vivemos começa a carecer de outras maneiras de competição além de preços e tecnologia. em 2008, o reino unido lançou seu planejamento de inovação, inovation nation, citado no ensaio da ailbhe [mcnabola]. nas 52 páginas do documento, design como ferramenta de inovação, como atividade, é mencionado 60 vezes. em 2010, a união europeia publicou seu próprio documento a respeito, chamado inovation union, com 43 páginas, que menciona 14 vezes o design como a ferramenta fundamental de inovação, que não deveria ser desprezada. um ano depois, o brasil edita a estratégia nacional de tecnologia e inovação para 2012 e 2015. temos a capacidade de sermos prolixos sempre, então o nosso documento tem 220 páginas, mas não fala em design uma única vez.

hoje percebemos que há uma abertura para discutir design com o governo em várias instâncias e com órgãos de fomento também. o bndes [banco nacional de desenvolvimento econômico e social] lançou não só o prodesign, mas o procult, com r$ 1,5 bilhão de reais, que também atinge o designer. só nesses dois programas já são r$ 2 bilhões, r$ 500 milhões para financiar design e uma fatia de r$ 1,5 bilhão que também pode ser usada para isso. o governo do estado do rio lançou, recentemente, um programa próprio de financiamento de r$ 80 milhões. na semana passada, tive uma reunião no rio com a presidência da finep [agência brasileira da inovação], discutindo como ajudá-los a entender melhor o design como ferramenta de inovação. nesses lugares, temos encontrado um panorama muito curioso: admite-se que o design é parte do processo de inovação que está sendo financiado, mas o julgamento é absolutamente subjetivo, não se sabe de que design se está falando, não se sabe por que o design é uma ferramenta de inovação.

durante a brasil design week 2013 em são paulo, nós da abedesign [associação brasileira de empresas de design] debatemos sobre o lançamento do programa do bndes. nossa preocupação é que parecia um casamento para o qual se esqueceram de avisar a noiva: o programa lançado foi uma surpresa para nós, designers. uma boa surpresa, mas, ao mesmo tempo, preocupante, porque é um programa que estabelece um corte inicial muito elevado – r$ 3 milhões, se eu não me engano – para entrada de projetos de design. para o bndes, já significa abaixar bastante o patamar habitual, que acho que é de r$ 10 milhões financiáveis. ainda assim, para projetos de design de uma maneira geral, é um patamar bastante elevado.

estamos chegando lá, mas precisamos encontrar mecanismos para capilarizar um pouco mais esses recursos. tenho até um certo receio de falar de capilaridade de recursos, porque temos uma tendência no brasil a sempre capilarizar, atingir todas as instituições, todos os locais, e isso, num país de proporções continentais, é um problema sério. acabamos não nos concentrando em nada, em nenhum programa de excelência, e criando uma enormidade de ações das quais um percentual mínimo efetivamente vinga. há quase dez anos, quando estava na direção da esdi [escola superior de desenho industrial], montamos um seminário com o bndes para discutir o que acontecia com as políticas de design no país: fazia-se alguma coisa, mas não ia adiante. a causa apontada foi a excessiva capilaridade de recursos. no brasil, às vezes há preocupação muito grande em distribuir recursos da forma mais democrática possível e cobrir toda essa enorme extensão territorial, mas não se consegue fazer isso. fiz meu doutorado em um programa do reino unido, cuja decisão estratégica de política de design nacional faz o oposto disso: decidiu-se concentrar todos os esforços em uma instituição para que essa se tornasse uma instituição de excelência. alcançando sucesso, esse exemplo se replicará e será seguido por outras instituições.

em 2008, organizamos um seminário internacional sobre políticas de design no rio de janeiro e convidamos representantes da espanha, da coreia do sul e do reino unido. eles trouxeram um panorama bastante diverso do que acontecia no brasil. estes países tinham centros, conselhos de design para propor, desenvolver e gerir programas de design, com grandes equipes, números impressionantes, enquanto no brasil nós tínhamos apenas uma pessoa no ministério do desenvolvimento tomando conta de um programa de design junto com programas de outras áreas. era impossível essa única pessoa gerir sozinha qualquer um daqueles programas, quanto mais diversos programas. eram programas que existiam só no papel.

o planejamento original do programa brasileiro de design é muito bem-feito, mas não dá para querer reinventar a roda e gerir políticas públicas sem um órgão de gestão de políticas públicas. há poucas semanas, em um debate na editora abril, disseram: “se vocês vão esperar que o governo faça alguma coisa, esqueçam; o segmento de design não vai crescer nunca”. eu contra-argumentei: “design é componente fundamental na promoção da inovação – e estamos de acordo com isso. se pretendemos nos tornar mais competitivos através da inovação e sabemos que para isso precisamos do design, basta olhar para os países mais competitivos no mundo hoje e ver como eles gerem as suas políticas de design; não adianta imaginar que vamos fazer de um jeito completamente diferente”.

eu vejo com muita preocupação como a economia criativa vem sendo tratada dentro da área da cultura no brasil. o produto do design pode se situar no ambiente da cultura, mas a produção do design se estabelece no âmbito da economia. portanto, o foco maior da discussão de políticas de design não pode ser deslocado para o produto do design, mas sim tratar das relações que existem entre design e inovação, desenvolvimento, políticas de ciência e tecnologia. se desconsiderarmos este contexto, vamos nos afastar do verdadeiro papel que o design representa, ou pode representar, para a economia. aliás, esse é o sentido original do que richard florida escreveu há tempos, a visão macroeconômica sobre as indústrias criativas e o papel delas como fator de competitividade. isso muito me preocupa. não podemos considerar o design apenas em relação ao seu produto final, pois isso alimentaria a visão do design como uma casca que aparece ao final da produção, e não como processo integral, front end da inovação.

em um artigo de 2009, o deputado antonio palocci [ex-ministro da fazenda] disse que o design fez mais pela economia brasileira do que qualquer medida protecionista. essa percepção dele tinha origem e se ampliava a partir do segmento da moda. existe, entre os economistas, uma vaga percepção sobre a importância do design, mas esse desvio de rota que se está fazendo é muito preocupante.

job rodrigues [bndes] questionou como ir além dos prêmios e da promoção no design, afirmando que uma política de design tem de ir além disso. isso vem sendo discutido há pelo menos 70 anos, que é a idade do design council. os historiadores remetem a história das políticas de design até o século 19, pelo menos; antes ainda, como uma pré-história, as políticas de design teriam surgido associadas às políticas mercantilistas e depois às feiras universais etc. uma das grandes críticas dos teóricos e historiadores do design ao próprio design council é que, muitas vezes, ele tomou o caminho da evangelização pelo design, como a ailbhe mencionou, por ser mais fácil fazer isso do que intervir no mercado. a intervenção no mercado é muito mais difícil de ser feita; falar dos aspectos positivos do design é muito mais fácil. aqui cabe uma grande autocrítica: nós, designers, temos a tendência de só falar, fazer esse papel de evangelistas de nós (e para nós) mesmos. nisso somos muito semelhantes, possivelmente, aos médicos que, quando lidam com a vida humana, têm a tendência de se verem como super-homens. designers têm a tendência de ser super-homens - afinal, designer é a profissão de deus - isso é muito perigoso.

quando falam que as políticas de design não estão inseridas em políticas tradicionais industriais e de inovação, eu discordo. usando o exemplo do design council: ele foi criado em 1944, durante a segunda guerra, para contribuir para que a indústria britânica crescesse depois que terminasse a guerra. um dos seus objetivos era fornecer mobiliário, acessórios de casa etc. para os bombardeados da guerra e para a grande quantidade de novos casamentos esperados com o retorno dos jovens que tinham ido para a guerra. eles iam formar novas famílias e precisavam mobiliar e montar casas. isso poderia alimentar a indústria britânica, que precisava voltar a crescer. é difícil haver maior inserção do design em uma política industrial do que isso!

outra coisa da qual eu também discordo é que as políticas de design surgem a reboque da indústria. as políticas de design têm sido usadas muitas vezes para intervir na indústria. a indústria coreana, por exemplo, fez uma opção de investir num segmento bastante incomum, o setor da indústria automobilística. o carro coreano há 10, 20 anos, para nós, no brasil, era a towner, da kia, aquele carro horroroso. hoje, os automóveis coreanos competem com a bmw, num patamar completamente diferente. foi uma opção de intervenção num segmento da indústria, sofisticado, totalmente diferente de uma ação em indústria de pequeno porte. foi uma ousadia em termos de política pública o que a coreia fez naquele momento.

sobre política intervencionista no mercado para corrigir falhas sistêmicas, esses documentos da unido dos anos 70 que mencionei previamente sugeriam exatamente esse caminho, que as políticas de design deveriam surgir para apoiar políticas industriais e de ciência e tecnologia, e mostravam como fazer isso. tinham fórmulas prontas que poderiam ser adotadas. no brasil, algumas foram seguidas. o departamento de design do int [instituto nacional de tecnologia] no rio foi criado nessa época, nos anos 70, dentro de uma política industrial. o cetec [fundação centro tecnológico de minas gerais], de belo horizonte, também foi criado nessa época para dar apoio à indústria moveleira local como parte de uma política industrial e tecnológica. existem exemplos práticos no brasil e há outros exemplos de intervenção de políticas de design hoje em dia na coreia, finlândia, dinamarca, suécia e, mais perigosamente, falando de nossa competição direta, em cingapura, na índia e na china.



[a série completa com as três publicações do british council está disponível online, na página "diálogos de economia criativa entre o brasil e o reino unido"]